«O que esperamos nós em multidão no Forum?/ Os Bárbaros, que chegam hoje./ Dentro do Senado, porque tanta inacção?/ Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?/ É que os Bárbaros chegam hoje./ Que leis haveriam de fazer agora os senadores?/ Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis».
Assim começa o poema do poeta grego Constantino Cavafy. De facto, porque entraram os bárbaros no fórum? É importante refletir sobre as causas da decadência da autonomia.
Os resultados eleitorais do dia 25 de Outubro não foram uma revelação. Já se esperava que o fascismo entrasse na casa da democracia dos açorianos, mas não se esperava que entrasse com a força toda elegendo, desde já, dois deputados, e sendo a quarta força mais votada.
É complicado conjeturar as imensas variáveis que possam ter conduzido a esta tragédia que assola a democracia que é o subir dos fascismos ao poder. Foram vinte e quatro anos de um poder praticamente absoluto por parte do PS-Açores. Tudo o que dura tem tendência ao desgaste natural. O PS dominou durante muito tempo e as pessoas ficaram cansadas. Já desde as eleições regionais em 2016 que havia sinais de desgaste. Os números provam isso. A abstenção sempre a aumentar e em soma, os votantes no PS a diminuir. Nem o facto de se ter mudado o líder do governo regional nas eleições de 2012, conseguiu travar o lento declínio da autonomia. O primeiro mandato de Vasco Cordeiro talvez tenha trazido algum fôlego ao governo, mas já em 2016 era evidente o desgaste e o descontentamento das pessoas. Aos poucos o descrédito foi tomando conta da consciência das pessoas que, aos poucos, se sentiram os rejeitados, os esquecidos da sociedade. Por isso não é com total surpresa que o partido que representa o fascismo tenha conseguido, com um discurso populista e sem fundamento argumentativo, e escondendo os seus reais interesses aos seu eleitorado, que consiste em destruir o sistema público de saúde e de educação, bem como ter políticas ultra conservadoras, xenófobas, misóginas e homofóbicas, conseguido agora eleger dois deputados à assembleia legislativa da região autónoma dos açores. Mas como foi possível as pessoas não perceberem que um partido com ideais nacionalistas, nunca irá permitir a existência de uma autonomia administrativa das ilhas?
Outro fator que poderia explicar os resultados eleitorais do dia 25 está no crescendo dos populismos um pouco por todo o mundo. Portugal tem o hábito de copiar tudo o que se faz lá fora, por isso não será de estranhar que agora, também aqui, o fascismo tenha ganho alguma força. Não sendo esta uma explicação única, é também uma delas.
Mas se à primeira vista este é o cenário que contribuiu para que os bárbaros tenham entrado no senado, também não se deve esquecer um outro problema grave: os Açores são a região do país onde há mais pobreza e mais abandono escolar. Este é uma grave problema que tem vindo a contribuir para o desgaste da democracia. A educação não está a conseguir preparar para a cidadania e isso é um problema grave que é urgente corrigir a bem do futuro. Uma sociedade em que há pobreza, é terreno fértil para estes populismos demagógicos.
Infelizmente, ainda há uma forte iliteracia eleitoral. Muitas pessoas não votam porque consideram que todos os políticos são corruptos (e foi justamente esse o argumento populista que serviu de lodo a esta eleição). As que votam, nem sempre sabem para que eleições ao certo vão votar. Confundem eleições autárquicas, com eleições legislativas e confundem candidatos, ou então têm uma noção muito vaga de quem são. Têm uma vaga noção de um partido (sobretudo os da alternância), mas continuam sendo incapazes de ler e perceber o que representam certos ideais.
Como se todas as variáveis acima mencionadas não fossem preocupantes para o atual cenário, é ainda mais preocupante constatar que as camadas mais jovens da população não mostram grande interesse pela política. Talvez porque não se identificam com ela. Talvez porque já não acreditam que ela tem impacto nas suas vidas. Talvez porque têm desafios que as gerações mais velhas não têm. Talvez porque não sentem empatia intergeracional. Tudo isto não passa de meras conjeturas que importa refletir.
Para além destas variáveis aqui mencionadas, uma parece ser evidente: a região autónoma continua ainda muito fechada e conservadora. Ainda é muito forte a cultura tradicional e patriarcal nas ilhas. Talvez esse seja ainda um fator muito preponderante para perceber porque o fascismo encontrou aqui terreno fértil para crescer.
Umberto Eco, escritor, filosofo e ensaísta Italiano, num dos seus ensaios, destaca justamente o culto das tradições como um dos fatores que proporciona o crescimento dos fascismos.
Pois é justamente para contrabalançar este conservadorismo que é importante que a educação, o conhecimento, o pensamento critico e um ensino mais inclusivo e que abranja todos na sua diversidade, possa ser o motor da mudança. Mas para isso é preciso que haja vontade em mudar. A educação para a cidadania é ainda uma utopia por cumprir.
Ainda que estas não sejam panaseias para o mal, é importante que se pense a autonomia dos açores e que se pense como transmitir o que ela significa e que impacto tem nas vidas das pessoas; é importante ensinar o que ela foi, como nasceu, como cresceu e como é tão frágil; como é importante regaur esta arvore com cuidado, para que parasitas não a destruam. Também é vital desmistificar aquela ideia de que os políticos só querem estar na política para os seus próprios interesses. Enquanto estiver disseminada a ideia de que todos os políticos só andam na política para fazer carreira e se aproveitarem disso, deixando o povo esquecido nas ruas da amargura, como em Os Miseráveis de Victor Hugo, infelizmente estaremos sempre à beira do abismo.
É importante legislar para o bem para contrabalançar a força ultra conservadora que agora está na assembleia. È que os bárbaros vão legislar a seu bel prazer se os deixarmos fazê-lo, como diz o poema de Cavafy.
E como este pequeno ensaio começou com poesia, é com poesia de José Carlos Ary dos santos que vai acabar, com um excerto do poema As portas que abril abriu.
«De tudo o que Abril abriu/ ainda pouco se disse/ e só nos faltava agora/ que este Abril não se cumprisse».
* Tito Fontes assina como Miguel Teixeira de Andrade