Porto Pim é uma baía fechada

Em muitas cidades costeiras, perante a erosão e as alterações climáticas, a resposta tem sido pesada: betão e avanços rígidos sobre o mar. Essas soluções não são neutras. Alteram correntes, modificam a dinâmica das baías, descaracterizam a paisagem e transformam a forma como as pessoas usam o espaço, normalmente afastando-as.

Em Porto Pim, esse risco é real. É importante perceber que cada muro, rampa ou plataforma construída hoje vai condicionar o uso da baía durante muitos anos.

A degradação dos bens históricos e o avanço do mar são urgências por resolver, e estão relacionados. É o conjunto de fortificações de Porto Pim que protege a baía ao avanço do mar. São os muros adjacentes e os blocos de pedra que calçam as estruturas que impedem que o mar salte para terra. Mas pedra de tufo está a desfazer-se, os muros de pedra já há muitos anos que deixaram de ter manutenção contínua. E a intervenção que se pondera fazer ali não tem isso em conta. Adiar o restauro é permitir a perda de património insubstituível e é também a perda de proteção contra o avanço do mar.

A forma como tratamos Porto Pim diz muito sobre a cidade que queremos ser. Uma cidade que resolve tudo com betão ou uma cidade que pensa, debate e projeta com sensibilidade? Cultura é também isto: capacidade crítica, visão de longo prazo, respeito pelo lugar. Defender a baía com inteligência é um acto cultural, porque revela maturidade coletiva e confiança no futuro.

A solução

Proteger Porto Pim é escolher intervenções proporcionadas, localizadas onde são necessárias, em continuidade com as fortificações e feitas com materiais coerentes com a ilha. Precisamos de conservar e estabilizar o que existe e também de proteger pontualmente os pontos frágeis com novos elementos. Claro que estes novos elementos podem ter betão se forem ao nível do mar, mas também podem ser de outros materiais ao nível das habitações, protegendo portas e janelas, como muitas cidades já fizeram para prevenir e evitar danos causados pelas cheias, salvaguardando diretamente as pessoas e os seus bens.

Já há muito que defendo que este processo deve avançar com uma equipa multidisciplinar que integre engenheiros costeiros, especialistas em património, geologia e ambiente e que seja liderado por alguém com formação em arquitetura que tenham uma visão mais global da baía e da cidade da Horta.

O ideal seria até avançar como está neste momento a ser feito em São Miguel com a criação de uma estratégia para reabilitar as antigas Fábricas da SINAGA. Foi decidido envolver a Ordem dos Arquitetos dos Açoresque seguiu uma abordagem participativa: primeiro estudar, ouvir e debater publicamente, depois definir orientações técnicas, o que resultou num documento para evitar decisões precipitadas e para reduzir o risco de erros irreversíveis num património histórico sensível.

Planeamento é respeito pelo território e pelo dinheiro público.

Numa ilha de basalto, faz sentido usar basalto. O mar reconhece a pedra; estranha o betão. Porto Pim não precisa de soluções rápidas nem de ocupação excessiva. Precisa de inteligência, visão de longo prazo e coragem política para escolher o cuidado em vez do excesso. Defender a baía é defender a Horta enquanto cidade viva, capaz de pensar antes de construir.