Os deputados municipais do Bloco de Esquerda/Açores no concelho de Ponta Delgada e Ribeira Grande apresentaram, nas respectivas Assembleias Municipais, propostas para a realização de um referendo sobre a construção de uma incineradora em S. Miguel.
Permitam-me saudar esta iniciativa cidadã e de democracia participativa.
Dar a palavra aos cidadãos/ãs para decidirem sobre aquilo que lhes diz respeito deve ser uma prática constante dos decisores políticos.
Lutámos pelo Orçamento Participativo, que, embora ainda num registo limitado, é já hoje uma realidade.
Prosseguimos esta linha de actuação agora com uma proposta de referendo. A tão apregoada distância entre as pessoas e a política combate-se, não com engenharias eleitorais para perpetuar os mesmos no poder, mas chamando as pessoas a decidirem sobre o seu futuro colectivo.
O instrumento do referendo local, neste caso, é um contributo nesse sentido, no sentido de vivificação da democracia participada e plena que desejamos.
Trata-se de ouvir a população sobre uma matéria de vital importância para o futuro de todos nós.
A questão é deveras séria: os presidentes de câmara da ilha de S. Miguel, em sede da Associação de Municípios, decidiram avançar para a construção de uma incineradora sem debate nas Assembleias Municipais, e sem ouvir os munícipes.
Estamos a falar de um investimento de muitas dezenas de milhões de euros, que contraria toda a lógica da reciclagem e sustentabilidade ambiental, que tem perigos para a saúde pública, e que irá tornar São Miguel numa ilha importadora de lixo, como forma de sustentar tal monstro que nos querem impor.
A obstinação por esta solução é tão grande que a falta de transparência chega ao desplante de considerar, nos estúdos prévios, apenas a incineração em alternativa à deposição dos resíduos em aterro.
Mas a verdade é que existem soluções alternativas à incineração e ao aterro. As centrais de tratamento mecânico e biológico são amigas do ambiente, criam mais postos de trabalho nas diversas ilhas, e são muito menos dispendiosas.
Pretende, pois, a Associação de Municípios da Ilha de S. Miguel avançar com um elefante branco, com base em pretensos estudos feitos à medida dos interessados, sem ouvir nada, nem ninguém.
A incineração é um negócio (com lucro para uns poucos e custos para todos). Só este desígnio explica a falta de transparência, o secretismo e as malabarices em todo este projecto.
Mas como quando se trata de “negócios”, os maus exemplos proliferam, também os municípios da ilha Terceira querem avançar para a incineração.
Através do referendo local, queremos que o debate sobre esta matéria seja levado a toda a população, que os argumentos técnicos e científicos, a favor e contra, sejam claros, que os custos financeiros sejam assumidos, que os custos ambientais de cada alternativa assim como a sustentabilidade ambiental seja discutida, que os problemas de saúde pública sejam assumidos, e que a criação de postos de trabalho sejam avaliada.
Em suma, queremos transparência e queremos democracia. Queremos que o povo decida!
Quem se opõe?