Rendas, crédito e trabalho

No Brasil, mais precisamente na Amazónia, entre finais do século XIX e inícios do século XX, no auge do ciclo da borracha, foi prática corrente a utilização de mão-de-obra que era paga em créditos, e não em dinheiro. A esses créditos era deduzido aquilo que se convencionava como o valor da renda das habitações, onde viviam os trabalhadores e suas famílias, que pertenciam aos proprietários das explorações de borracha. E a compra de bens de primeira necessidade só era possível através da troca desses créditos pelos bens, com valores inflacionados, nas lojas que também eram propriedade dos proprietários da exploração. Por conseguinte, os trabalhadores acabavam por gastar mais créditos do que aqueles que auferiam e ficavam presos a um ciclo de endividamento inevitável, do qual não conseguiam fugir e tornavam-se, apesar de indiretamente, propriedade dos seus patrões. À época, era uma prática tida como normal e aceitável, dado o isolamento destas explorações que impedia a circulação de moeda, esta era, pelo menos, a justificação subjacente à perpetuação desta prática e que a tornou socialmente aceitável. Contudo, mais tarde, foi tida como uma condição análoga à escravatura e, por isso, ilegalizada.

A prática da «cantina», assim designada, porque estas explorações também tinham cantinas próprias (propriedade dos proprietários das explorações de borracha), não ocorreu somente no Brasil, foi também uma realidade nos EUA, durante o século XIX, na indústria madeireira e nas minas de carvão. Tal como no Brasil e outros países e regiões onde esta e outras práticas análogas foram mantidas, tais práticas só foram quebradas, a partir da altura que passaram a ser consideradas, não só pelo bom senso, mas também pelo senso comum, como aberrações e exemplos de imoralidade laboral.

Poderíamos pensar que todos estes exemplos históricos foram uma realidade que ficou encerrada num passado, que mesmo não sendo muito distante, parece algo anterior à Revolução Francesa e típica de um período feudal. Ou que, mesmo fazendo parte da nossa contemporaneidade, são fenómenos típicos do mundo subdesenvolvido. Mas, infelizmente, temos assistido no nosso tempo a exemplos comparáveis à prática da «cantina», em pleno mundo ocidental, e até mesmo naquele que é tido, por muitos, como o centro do mundo desenvolvido, os EUA, onde em 2008, uma famosa grande superfície retalhista começou a pagar parte do salário dos seus funcionários em créditos que só poderiam ser gastos nas suas lojas. Deveria dar que pensar, não concorda? Prefere pensar que pagar parte do salário em créditos para serem gastos nas lojas do próprio patrão não é comparável ao princípio que subjugou quem trabalhou nas explorações de borracha na Amazónia ou nas minas de carvão nos EUA? Prefere pensar que não temos exemplos destes nos Açores?

Agora, tente imaginar que contraiu um crédito para aquisição de habitação própria e que, por desemprego ou súbita e inesperada quebra de rendimentos, não consegue continuar a cumprir o pagamento da prestação do seu crédito. Perante tal constrangimento, a entidade bancária com quem tem o contrato de crédito propõe-lhe que faça uns «trabalhinhos» para regularizar o seu crédito. Por exemplo, se é licenciado em Economia ou Gestão, passaria a fazer umas horas a avaliar as condições de crédito de outros clientes, a fazer a gestão da carteira de investimentos dos clientes mais abonados, etc. Se não tiver grandes habilitações, também não haveria problema, sempre poderia fazer umas limpezas nas instalações das várias sucursais ou, quem sabe, «fazer umas voltas». Dá que pensar, não acha?

Perguntem-me qual o propósito desta breve resenha histórica. Não sei, mas pareceu-me indicado…vai-se lá saber porquê?