Criminalizar maus tratos infligidos a animais não era, para muita boa gente, prioridade, mesmo que um certo desconforto se instalasse (um desconforto mais sentido na esfera pública do que na esfera privada) quando confrontados com o «estado da arte» da forma como nós, seres animais superiores, dotados de supra-racionalidade, facilmente resvalamos para a barbárie ao darmos um ou outro pontapé nos bichos que nos rodeiam.
Toda a gente sabe que os maus tratos a animais são, infelizmente, uma prática mais comum do que desejaríamos. E que pouco ou nada impedia alguém de fazer o que lhe desse «na gana» aos tais animais desprovidos de racionalidade e, por isso, para muitos (nas profundezas da consciência) também desprovidos de direitos.
Agora, temos um quadro legal que criminaliza os maus tratos a animais, mas, estranhamente (ou talvez não), tornou-se urgente a adaptação à Região de tal insanidade legal para que nenhum mal ocorra aos seres humanos cá da Região. Não vá algum ter de se chatear por continuar a dar o seu pontapé, cheio de carinho, ao animal que tem lá por casa.
Clamam alguns fabricadores de opinião - e, por vezes, de autênticos crimes religiosos de ventre à mostra – que a nossa sociedade está em declínio face à atitude antropomorfa que adotamos para defender os direitos dos animais irracionais, para, logo de seguida, lá reconhecerem que lá temos de arranjar forma de fazer algo para que não se cometam bestialidades para com uns animais-objeto que temos lá por casa ou nas ruas da nossa Região.
Sendo muito objetivo, o quadro legal, recentemente aprovado, é tudo menos antropomorfo, até porque as penas aplicadas a quem inflige maus tratos a animais não são, nem de perto, nem de longe, comparáveis às penas aplicadas a quem comete crimes contra a vida e/ou integridade física de outrem. Portanto, não se trata de colocar num mesmo plano de igualdade os seres humanos e os tais animais irracionais. Por outro lado, a desvalorização da visibilidade e importância dos maus tratos infligidos a animais através da comparação com a pobreza e miséria humana é um argumento falacioso e repleto de antropomorfismo, por comparar aquilo que não é comparável. Suspeito que essa é uma lógica muito mais frequentemente adotada por quem perpetua a inevitabilidade histórica da pobreza e da miséria, o que consequentemente atiraria a defesa dos animais irracionais para o fundo do arco-íris.
Na Região, julgo que uma eventual opção por uma adaptação deste quadro legal para que, na prática, tudo se faça para que fique tudo na mesma, no que diz respeito ao sancionamento de quem mal trata animais será da iniciativa de quem, através das políticas que defende, procura eternizar a pobreza e a miséria humana.
Há muita boa gente que deveria assumir de forma muito objetiva o que pretende, quando se arma em defensor do rigor e da transparência, ao reclamar que há muita gente a viver à «grande e à francesa» à custa de apoios sociais para justificar cortes nesses mesmos apoios sociais, condenando muitos à míngua, o que não é mais do que uma forma mais confortável de condenar à morte quem consideram estar a mais, num mundo onde os animais superiores têm ligações privilegiadas e lucrativas com o poder governativo e fogem aos impostos ao transferirem milhares de milhões de euros para off-shores.