Faltam-me as palavras para descrever o último dia do Plenário de Junho! Contudo, há uma que é bem capaz de resumir o ocorrido – “sectarismo” -, se atentarmos na definição do dicionário: “seguidor de uma seita; zelo ou apego exagerado a um ponto de vista; intolerante; intransigente; característica de muitas seitas, religiões e grupos ideológicos que são obstinados e inflexíveis, na defesa das suas doutrinas”. Ok. Há falta de melhor, esta palavrinha dá conta do recado.
Há dois meses atrás, o Partido Socialista aprovou uma iniciativa do Bloco de Esquerda, a qual recomendava ao Governo Regional a regularização do pagamento do Complemento Açoriano ao Abono de Família. Fê-lo – e bem -, porque reconheceu, publicamente, que havia um atraso significativo na regularização do mesmo, relativamente a um número bastante considerável de famílias. De facto, em Fevereiro deste ano, o Governo Regional pagou apenas os meses de Janeiro a Junho de 2016, continuando, portanto, em falta, o pagamento correspondente aos últimos 12 meses, ou seja, de Julho de 2016 a Junho de 2017.
Ora, a semana passada, o mesmo Partido Socialista chumbou uma nova iniciativa do Bloco de Esquerda, a qual dava conta do incumprimento, até à data, da referida regularização, pelo que insistíamos na urgência da mesma! Dito de outra maneira: o PS, não só votou, agora, contra si próprio, como também votou contra uma Resolução da Assembleia Legislativa dos Açores, aprovada por unanimidade!
Mas, antes mesmo que alguém tenha tempo para se aperceber do inusitado – ou inacreditável, ou escandaloso, ou insultuoso, ou até mesmo anedótico - da coisa, devo acrescentar que este não foi o único tesourinho deprimente daquele dia, como poderão apreciar a seguir.
Há quatro meses atrás, o Partido Socialista aprovou uma iniciativa, com carácter de urgência, do Bloco de Esquerda, a qual recomendava ao Governo Regional a regulamentação das alterações à Tarifa Social de Electricidade, introduzidas pelo Orçamento de Estado para 2016. Fê-lo – e bem -, porque reconheceu, publicamente, que havia, nos Açores, um atraso injustificável, na implementação do processo de automatização do acesso à referida tarifa, a qual estava já em vigor, no continente, desde Julho de 2016.
Ora, a semana passada, o mesmo Partido Socialista chumbou uma nova iniciativa do Bloco de Esquerda, a qual reclamava a urgência do cumprimento da resolução aprovada, em Fevereiro último, por unanimidade! Dito de outra maneira: o PS, não só voltou a votar contra si próprio, como considera, agora, que não é urgentíssimo, algo que considerava urgente há quatro meses atrás.
Confusos/as, caros/as leitores/as?! Eu também, acreditem. Confusa, mas definitivamente esclarecida, acerca das prioridades políticas do partido absolutamente maioritário.
Que importância tem o facto da lei impor que o Complemento Açoriano ao Abono de Família deva ser pago, mensalmente? Ou que a previsibilidade do pagamento do referido complemento seja essencial para muitas famílias, face às suas despesas mensais e aos seus reduzidos vencimentos? Ou que o atraso no seu pagamento ponha em causa a qualidade de vida das nossas crianças e jovens? Ou que a Tarifa Social de Electricidade possa aliviar as despesas de mais de 15.000 famílias açorianas? Ou que a Região seja incapaz de implementar um apoio social importantíssimo, em vigor há um ano, no continente?
Para o PS, nada disto tem qualquer importância! Importante, mesmo, é manter o dinheiro, no primeiro caso, no bolso do Governo e, no segundo, nos bolsos do grupo Bensaúde!