Será Greve? Será uma Manifestação? Ou será Política?

Apesar de não ter nem nicotina ou cafeína, a verdade é que ressaco se não conseguir ler o meu jornal diário, para o caso, o Açoriano Oriental. Faz parte da minha rotina, faz parte das minhas tarefas de afazeres e tem tanta importância como um bom pequeno-almoço! Mas confesso que coisas há, que me tiram completamente o apetite e me causam uma inquietude quase que semelhante aos sintomas de abstinência de um qualquer vício. Assim me senti quando passei os olhos por um artigo de opinião intitulado “A política do quanto pior, melhor”, aqui nesta rubrica, publicado não só no dia 19, como também no dia 20 do corrente mês.

Causa-me algum “frenesim” a forma redutora, limitada e inconsequente como o autor classifica a Greve Geral levada a cabo por imensos cidadãos e cidadãs no dia 14 de Novembro.  Não fosse já penosamente suficiente, conduzirem as nossas vidas com base em fórmulas de Excel, há ainda quem tem a coragem de caracterizar as greves e manifestações com base em definições da “wikipédia”. Quanta arrogância Senhor! 

Permita-me pois, que com base nessa mesma lógica, lhe explique:

Greve ? Manifestação ? Politica

Apesar de estas três parcelas significarem diferentes formas de luta, o mais importante a reter é que tanto as Greves, como as Manifestações e a Política, só se fazem com Pessoas, e Pessoas, no meu dicionário significa “diferentes cidadãos e cidadãs que merecem todo o respeito do Mundo, independentemente das ideologias em que assentam os seus comportamentos”.

Com que legitimidade se pode afirmar que os jornalistas, uma vez que noticiaram e acompanharam o dia de Greve, não concordam com os fundamentos da mesma? Primeiro, não é justo generalizar uma classe dessa forma, muito menos catalogar a sua consciência desconhecendo totalmente todos os outros fatores externos e diretamente condicionantes da sua forma de agir. Ocorre-me, a título de exemplo, que na conjuntura atual, o facto do dia de greve ser um dia a menos na retribuição mensal do trabalhador, poderá eventualmente contribuir para uma menor adesão a esta, o que impossibilita qualquer tipo de correspondência direta entre a participação cívica e a concordância ou não com esta forma de luta. Ocorre-me também, que sendo a adesão à greve um direito de todos os trabalhadores, nada na nossa legislação nos indica que o grevista tem obrigatoriedade de se manifestar publicamente, pelo que não está implícito que os grevistas são unicamente os manifestantes, e vice-versa, sendo que os manifestantes podem ser altos ou baixos, gordos ou magros, empregados ou desempregados, socialistas ou comunistas, sindicalizados ou não! 

Serão por certo pessoas, cidadãos e cidadãs, que não baixam os braços à austeridade que lhes é radicalmente imposta, a quem foi retirado o emprego, a quem foi retirada a casa, a quem foi retirado o sono, a quem foi brutalmente retirado o prazer de viver!

Por fim, não posso deixar de lamentar que, na atualidade do nosso País, onde reina a corrupção, onde abundam os investimentos duvidosos, as escandalosas mordomias conjugadas com os também escandalosos vencimentos, do atual Governo da Republica, haja ainda quem, em pleno Séc. XXI afirme “que as greves podem contribuir é, para piorar, ainda mais as coisas”, quando o que francamente me parece piorar as coisas é, ainda haver quem subestime a voz de um Povo!