As companhias aéreas de baixo custo (low-cost) já começaram a operar as rotas entre os Açores, a partir de São Miguel, e o continente, e com toda a pompa e circunstância como se, agora, se inaugurasse uma nova era de prosperidade económica, numa verdadeira antecipação do que poderá ser a próxima ‘boia de salvação’, o turismo, na sua fase preparatória para substituir a era da lavoura, da base das Lajes e da construção civil. Agora é que é! Vamos ter turistas como na Madeira! E quem vier com conversas de que a Madeira prepara-se para repensar o seu modelo de exploração turística é um desmancha-prazeres, um daqueles que teima em não querer a modernidade e o desenvolvimento para a nossa terra.
A banda toca, o grupo folclórico atua e os turistas assistem! Tudo parece correr sobre rodas, ou melhor, sobre as asas do tal avião de 189 passageiros e das viagens baratas que criarão 70 postos de trabalho diretos e 350 postos de trabalho indiretos. Tem tudo para funcionar. Encaminhamentos gratuitos entre São Miguel e as restantes ilhas, e graças à companhia aérea de todos nós, choverão turistas por todas as ilhas para visitas rápidas, pois a roupa que trouxeram na mala de mão não dá para mais do que três dias, caso contrário, a viagem ficaria mais cara. Tão ou mais cara do que uma viagem numa das companhias aéreas regulares.
Entretanto, amiúde lá vão surgindo algumas notícias que nos dão conta das dificuldades financeiras da nossa companhia aérea, que terá, obrigatoriamente, de iniciar despedimentos. Ou como os seus responsáveis preferem dizer, não recorrer a colaboradores sazonais - aqueles que prestavam serviços durante 7 a 8 meses por ano, e há anos a fio, autêntico «pau para toda obra», alimentados pela esperança de uma futura integração - ou, ainda, aqueles que estando a prazo, não terão os seus contratos renovados. Mas também vamos ouvindo notícias da exigência destas glamourosas companhias aéreas de baixo custo em terem o serviço de handling mais barato, nem que para tal tenham de precarizar a mão-de-obra.
Feitas as contas entre os descartados da SATA e os contratados pelas companhias aéreas de baixo custo e pela nova empresa de handling, tenho a impressão que a única diferença será, eventualmente, na conversão de postos de trabalho precários em postos de trabalho ainda mais precários. Mas de que interessa? O que interessa mesmo é ver a banda a tocar, o grupo de folclore a atuar e os do costume a aplaudir. Tudo normal, na opinião de muitos que nos querem fazer crer que melhor é impossível. Que mais vale um emprego mal pago e precário do que ficar desempregado, não fosse este o preço a pagar por viagens tão baratas que, afinal, serão bem caras.