Trocadilhos

Há cerca de quinze dias, o Instituto Nacional de Estatística divulgou a taxa de desemprego, referente ao final do ano de 2014.

Estes dados mostram que, tanto a nível nacional, como a nível dos Açores, houve algum decréscimo nos números do desemprego. Pequeno, é certo, mas inegável.

Os governos da República e dos Açores celebraram, de imediato, este acontecimento, justificando-o com a bondade das suas respectivas políticas. Como se 14% de taxa de desemprego, na República e 15,5%, nos Açores, fossem “boas notícias” e merecessem ser celebradas…

Esta singular ‘festa’ suscita-me algumas notas:

1 - Através dos Órgãos de Comunicação Social, ouvi e li declarações de ministros da República, assim como de responsáveis dos Açores, sobre a ‘boa nova’. Estranhamente (ou não), os termos empregues e a lógica de raciocínio eram as mesmas! Cada um reivindicava os méritos do referido fenómeno, dizendo, tal e qual, a mesma coisa.

De facto, se fizéssemos o simples exercício de só ouvir, ou só ler as notícias, sem sabermos quem estava a prestar declarações, a unidade de discurso saltava à vista. Como é possível o PS ter o mesmo discurso do PSD e do CDS, quando afirma que tem uma política diferente?

2 – Corresponde, de facto, esta pequena diminuição do desemprego, a uma alteração substancial, na estrutura económica vigente, que permita uma perspectiva positiva para o futuro? Infelizmente, é certo que não.

3 - Nos últimos três anos, emigraram cerca de 350.000 portugueses/as. Quantos/as corresponderão aos Açores? Não sabemos. O Governo Regional não diz.

4 - Quantos Açorianos/as estão nos CEI e CEI+, a trabalharem sem direitos e sem garantias, para Autarquias e IPSS’s?

5 - Tal como no continente, nos Açores, proliferam os programas para desempregados, seja postos de trabalho, nas empresas, pagos pela Região, seja cursos de formação. Aliás, com os novos fundos comunitários, estes estágios e/ou cursos tenderão a aumentar.

Todos/as concordaremos que é melhor do que não ter nada, mas não passam de paliativos temporários. E são demasiados milhares de Açorianos/as ocupados/as desta forma.

Manipular os números pode servir para a propaganda, mas em nada altera a realidade. E a realidade mostra que não há nenhuma alteração profunda, na economia, que nos dê esperança.

E quando analisamos a qualidade do emprego, esta realidade torna-se ainda mais penosa. Tal como no continente, a pobreza, nos Açores, aumentou, não só por via directa do desemprego, mas também pela diminuição abrupta dos salários - quer no sector público (20%), quer no privado (11%).

Nos Açores, onde os salários do sector privado são mais baixos do que no continente - e a pobreza estrutural nunca foi erradicada -, esta realidade é agravada, porque a quase totalidade dos empregos alcançados, no último ano, são precários e não ultrapassam o ordenado mínimo regional. Em contraponto, empregos por conta de outrem, a tempo inteiro, diminuíram.

Acresce que as mesmas estatísticas não contabilizam as pessoas já desencorajadas e que não se inscrevem em lado nenhum.

Resumindo: feita uma leitura diferente dos números, podemos concluir que a realidade da vida das pessoas não muda, por mais festejos que os governos encomendem.

E continuo a ter muita dificuldade em compreender a similitude de discurso do PS/Açores, com o PSD e CDS, no continente, a propósito destes números. Sobretudo, porque a vida das pessoas pouco ou nada mudou!