Uma acareação entre aspas

Mas, afinal, o que é uma ‘acareação’? Eu explico. É um procedimento onde, por exemplo, inquiridos ou depoentes, já ouvidos anteriormente, são colocados face a face para esclarecer divergências encontradas, nas suas primeiras declarações. É, portanto, uma confrontação – entre duas ou mais pessoas -, facultando-lhes a possibilidade de, olhos nos olhos, conciliarem (ou não) as respectivas afirmações.

Ora, no âmbito de uma comissão de inquérito parlamentar, os/as deputados/as têm legitimidade legal para propor e usar este tipo de procedimento. Podem, também, chamar a depor, uma segunda vez, alguém cuja primeira audição foi pouco esclarecedora ou contraditória. Neste caso, estamos perante aquilo que se chama ‘segundo depoimento’. Estas duas formas de audição são possíveis e legítimas, mas não são, obviamente, a mesma coisa.

E quem dera que tudo se pudesse resumir a uma ‘questão de terminologia’! A questão é muito mais profunda, porque a opção por uma ou outra forma de audição é tudo menos inocente…

Como todos/as sabem, está a decorrer uma Comissão de Inquérito Parlamentar à SATA. A determinada altura dos seus trabalhos, os/as deputados/as que a integram foram confrontados com afirmações gravemente contraditórias, quer do presidente da Sata, Dr. Luis Parreirão, quer do presidente da PWC, Dr. António Correia. Decidiram, por isso, usar da faculdade de fazerem uma acareação entre ambos. E é a partir deste momento que tudo se complica…ou talvez não, na medida em que, nos últimos dias, ficou provado a quem não interessa o integral apuramento da verdade dos factos, objectivo último de qualquer comissão de inquérito.

Primeiro, não houve acareação coisa nenhuma, porque os depoentes referidos foram ouvidos, separadamente, tal como tinha acontecido, nas respectivas primeiras audições. Depois, dá-se o caso do presidente da SATA ter solicitado informação sobre o conteúdo das questões que lhe iriam ser colocadas pela Comissão, porquê e como, tendo obtido todos os esclarecimentos solicitados. Finalmente, após audição separada, de um e de outro, ambos repetiram, ad nauseam, exactamente o mesmo que haviam dito, em anterior audição.

Pelo meio deste filme de má qualidade – porque, desde o seu início, se adivinhava o final -, temos a cena caricata de inventar um nome para aquilo que a Comissão estava a fazer. Ou seja, seria uma acareação entre aspas? Não, porque uma acareação é uma acareação… e as aspas não fazem parte do conceito. Seria um segundo depoimento? Não, porque a convocatória referia uma acareação. Seria uma forma de acareação inventada pelo PS/Açores, à falta de melhor? Não, porque o PS/Açores (ainda) não tem a faculdade de inventar acareações da forma que lhe dá mais jeito. Mas, então, que raio estávamos ali a fazer? Ah, de repente fez-se luz e surgiu a melhor definição: “Vamos dar início à segunda parte da coisa”!

E, é verdade, o BE recusou fazer ‘parte da coisa’, por respeito pela Comissão que integra e por se recusar a por em causa a credibilidade dos respectivos trabalhos.

E também é verdade que, in extremis, propôs que a Comissão votasse favoravelmente a proposta que fez, no sentido de realizarmos uma a-ca-re-a-ção…a sério. Adivinhem quem votou contra? O PS, pois claro! E porquê? Deixo as conclusões à vossa consideração…