Falando com uma amiga minha sobre os desafios da velhice, chegámos à conclusão de que somos privilegiadas em tantos aspetos: temos recursos suficientes para viver confortavelmente; temos saúde; temos círculos de amizade que providenciam apoio social e emocional; temos paixões na vida, especialmente no que respeita à nossa criatividade e o nosso envolvimento político. Somos parte daquela categoria elástica chamada de classe média. E o nosso privilégio baseia-se na nossa educação e escolaridade. Temos o capital cultural suficiente por termos tido bons empregos e agora boas reformas e, com esse capital cultural temos oportunidades de fazer contatos sociais que nos beneficiam.
Mas a maior parte das mulheres da nossa idade não vivem como nós. Para começar, as mulheres açorianas são, em geral, pobres. A pobreza é feminina e agrava-se com a idade. Muitas mulheres passaram a sua vida em afazeres domésticos dentro de suas casas ou a dar dias. Raramente estas mulheres descontaram para a Segurança Social e agora são as mais pobres entre os pobres. Outras mulheres trabalharam para outrem desde a adolescência, mas têm reformas de miséria. Muitas vezes pergunto-me “como sobrevivem?” Isto para não falar da solidão dos dias compridos, com filhos a trabalhar e a viverem na cidade, longe de poderem dar apoio e alegria às suas mães e avós.
Por outro lado, temos tantas mulheres mais velhas que são cuidadoras de quem está doente ou de seus netos. Estas mulheres não têm tempo nem energia para cuidarem de si. Trabalho doméstico em suas casas é trabalho não remunerado que é o alicerce da nossa economia. É o trabalho doméstico de cuidadora que permite que idosos doentes vivam em suas casas. É também esse trabalho de cuidar dos netos enquanto as mães trabalham que permite, em parte, a existência de uma mão de obra barata. Imaginem se o Estado, como é o seu dever, criasse uma rede nacional de cuidados continuados gratuita? Imaginem se o nosso país e a nossa região tivessem uma rede gratuita de creches e Atividades de Tempos Livres depois da escola, abrangente a todas as crianças que o necessitam? Imaginem se cuidadoras informais recebessem um salário pelo seu trabalho?
Na ausência de apoios que as pessoas desesperadamente necessitam, temos muitos milhares de mulheres escravizadas que nem notam que as coisas poderiam ser melhores porque fazem o trabalho doméstico e o de cuidadoras por amor à sua família. E esse amor é esmagador dos seus próprios anseios, vida social e capacidade de investirem tempo em cuidados próprios.
Entre a pobreza de recursos e a pobreza de vida, poucas são as mulheres velhas que fazem os seus talentos florir e esse é também um grande dano social porque as mulheres de terceira idade têm muito para contribuir para a sociedade para além dos confins do lar.
Eu não sei quanto tempo me resta com energia e lucidez, mas quero fazer cada dia um dia rico de experiências e vivências. A minha amiga e eu somos velhas, mas é exatamente a nossa experiência de vida que nos oferece tantas oportunidades de sermos mais autênticas, mais corajosas e mais irreverentes.