Velhice feminina: Do privilégio à falta dele (parte 2)

Estou muito satisfeita porque tenho óculos novos. Agora vejo lindamente, até as letras pequenas nos frascos de medicamentos. Óculos são caríssimos, especialmente lentes progressivas que custam mais do que um salário mínimo, mas não tenho outro remédio porque, com a idade, a minha vista está a deteriorar-se mais rapidamente.

Quando eu era nova nunca me ocorreu que parte do processo de envelhecimento passa por despesas acrescidas devido à degeneração do corpo. Para além de óculos, há quem precise de aparelhos auditivos, ou de bengalas, ou de sapatos ortopédicos, ou de cuecas especiais. Isto para não falar de medicamentos e de cuidados médicos no privado porque a lista de espera para um especialista no Serviço Regional de Saúde é muito longa. Quem tem menos anos de vida restantes não tem tempo para esperar meses ou anos para uma consulta de oftalmologia, por exemplo. Eu não defendo o uso de serviços de saúde privados. Pelo contrário, sou uma defensora acérrima dos serviços públicos gratuitos e acessíveis a toda a população. Sou absolutamente contra um sistema dual onde parece que há um país para quem pode pagar e outro para quem é pobre. Mas a realidade instalada é essa e torna-se particularmente premente e urgente quando se tem uma doença grave e leva um ano para se ter um exame de ressonância magnética. Ou dois anos para uma consulta de psiquiatria. Tenho um vizinho idoso que levou três anos para ser operado a uma perna ulcerada no SRS. As pessoas fazem sacrifícios financeiros e acabam por ir a médicos privados porque se sentem desesperadas.

Isto numa altura da vida quando a maior parte das pessoas têm menos rendimentos porque o tempo de receberem salários já passou devido ao envelhecimento e as reformas são menores do que os salários. Entre os mais pobres, a maioria são mulheres sem reforma, ou com pensões de miséria. A pobreza é principalmente feminina. E é velha. 

Entretanto, tenho óculos novos e vejo bem porque tenho o suficiente para o que é necessário. Sou privilegiada em comparação a tantas mulheres da minha idade.

Infelizmente, um grande número de mulheres idosas não tem acesso a escolhas fundamentais para o seu bem-estar. No caso de doenças crónicas ou de pessoas idosas acamadas, as despesas são ainda maiores. Até nos lares de terceira idade, como na Clínica do Bom Jesus, onde a mensalidade é elevada, os utentes têm de pagar pelas suas fraldas de adultos. As despesas relativas à velhice acumulam-se e há muita gente que tem de fazer escolhas terríveis como a de comprar comida ou medicamentos.

Como sociedade, somos todos responsáveis pela situação de pobreza de tantas pessoas. O problema é que, na nossa democracia, reina a inércia. Mesmo quando sāo apresentadas propostas concretas, como as do Bloco de Esquerda, para a alternativa de uma sociedade mais justa, mais amiga do ambiente, mais humana, as pessoas continuam a votar nos partidos tradicionais ou, como adolescentes rebeldes, votam no pior dos populismos. Apelo à resistência contra a erosão do nosso Serviço Regional de Saúde que deve ser consolidado e expandido. Acuso os sucessivos governos regionais de desprezo pela saúde preventiva, cuidados continuados e saúde mental. Acuso-os também de desprezo por utentes que levam meses até receberem um diagnóstico de cancro, serem operados às cataratas ou receberem diagnóstico e tratamento de tantas outras doenças. Acuso o atual governo de direita de desprezo pelos médicos dos serviços de urgência que querem que façam horas extraordinárias sem limites, pondo em perigo os próprios cuidados de emergência.

Finalmente, peço uma reflexão sobre o privilégio de quem, como eu, tem meios suficientes para poder fazer face às despesas acrescidas da idade comparado com a maiorias das pessoas que não estão na minha situação. Peço um compromisso pessoal de quem lê estas palavras para transformarmos a nossa sociedade numa mais justa, com solidariedade para tantas mulheres velhas que não podem comprar óculos.