A vida chama vida

Há uma característica curiosa no comportamento humano. Quando vemos pessoas reunidas, aproximamo-nos. Às vezes para participar. Outras vezes apenas por curiosidade. Para perceber o que está a acontecer.

É por isso que uma esplanada com algumas mesas ocupadas enche mais depressa do que uma completamente vazia. É por isso que se um músico de tem meia dúzia de pessoas à volta, passados quinze minutos, já há uma pequena multidão.

A vida chama vida. Em casa acontece exatamente o mesmo.

Quando alguém começa a cozinhar, a cozinha ganha outra energia. Há movimento, há cheiros, há conversa. Quem estava no quarto aparece para ver o que se passa. Outro ajuda a pôr a mesa. Alguém prova o molho. Sem que ninguém o tenha planeado, aquele espaço transforma-se no centro da casa. Não foi a cozinha que mudou. Foi a atividade.

As cidades funcionam da mesma forma. A vida acontece entre os edifícios.

Quanto mais pessoas encontramos na rua, mais vontade temos de ficar. Quanto mais tempo permanecemos, mais oportunidades surgem para conversar, brincar, fazer exercício, abrir um pequeno negócio, organizar uma atividade ou simplesmente observar quem passa. Uma pessoa atrai outra. Uma atividade atrai outra. E, pouco a pouco, nasce uma comunidade.

É precisamente por isso que devemos pensar cuidadosamente na forma como desenhamos as nossas cidades. Durante décadas acreditámos que o objetivo era facilitar ao máximo a circulação dos automóveis. Estacionar à porta de tudo. Entrar e sair o mais depressa possível. Mas cada passo que deixamos de dar é também uma oportunidade de encontro que desaparece.

Quando o carro fica mesmo à porta, atravessamos a rua sem olhar para ninguém. Entramos no destino e voltamos a sair minutos depois. Nada acontece pelo caminho.

Mas quando estacionamos um pouco mais longe, caminhamos. Cruzamo-nos com outras pessoas. Entramos numa loja onde não pensávamos entrar. Cumprimentamos um vizinho. As crianças observam uma montra. Encontramos um amigo. Descobrimos um recanto da cidade. A distância, quando é confortável e agradável de percorrer, não é tempo perdido. É tempo de cidade.

É assim que nascem as cidades vivas. Curiosamente, hoje gastamos uma parte enorme do nosso rendimento para pagar duas coisas: a casa e o automóvel. Construímos cidades onde precisamos do carro para quase tudo e, depois, gastamos uma parte importante da nossa vida a pagar o privilégio de o utilizar. No fim, sobra pouco. Pouco dinheiro. Pouco tempo. E, muitas vezes, pouca cidade. Gostávamos que sobrasse mais?

Claro. Mas a pergunta continua a ser: a que custo? Educar uma criança ajuda-nos a perceber isto. Educar não é oferecer chocolates sempre que os pede. Se as crianças votassem, talvez lhes déssemos muitos mais. Não porque isso fosse melhor para elas, mas porque seria a forma mais fácil de conquistar a sua simpatia.

Governar uma cidade enfrenta o mesmo desafio. É fácil tomar decisões que agradam hoje. Mais difícil é tomar decisões que tornarão a cidade melhor daqui a vinte anos. Às vezes isso significa dizer que nem todos os carros podem estacionar à porta. Que uma praça vale mais do que mais alguns lugares de estacionamento. Que um passeio largo vale mais do que mais uma faixa de rodagem. Que uma árvore adulta vale mais do que alguns metros de alcatrão. Porque o objetivo de uma cidade nunca foi facilitar a circulação dos carros. Foi facilitar a vida das pessoas.

Porque, no fundo, a melhor cidade não é aquela onde conseguimos chegar mais depressa a casa. É aquela que nos faz demorar um pouco mais a querer voltar.