O que aconteceu em Paris, na passada sexta-feira, é mais do que lamentável. É a prova da monstruosidade humana, com a diferença de que a sua prova feita ocorreu no nosso «quintal» - ou no «quintal» do nosso vizinho – e, por isso, nos sentimos mais vulneráveis. Esta prova arrepiante de terror, que nos foi imposta, tem sido recorrente e também, de certa forma, banalizada em outras zonas do globo, onde o Daesh tem consolidado a sua ocupação territorial (parte da Síria e Iraque).
O ataque, ou os múltiplos ataques, a que assistimos em Paris foi mais uma ação entre várias ações concertadas nas mais diversas zonas por onde o Daesh procura ganhar projeção, para atentar, à força – porque corresponde também ao modelo de sociedade que pretende impor – contra um modelo de sociedade que adota o Estado de Direito e laico para o substituir por um modelo de sociedade que brutaliza homens e mulheres e condena-os à vida em terror.
O terror que o Daesh espalha, ao ocasionar a difusão do medo, divide as suas vítimas e tem a perversidade de as colocar umas contra as outras, num aproveitamento das distâncias e desconhecimento cultural que, pese embora vivamos numa «aldeia global», cria preconceitos, origina preconceitos e origina discriminações, sempre tão apetecíveis à extrema-direita.
Da mesma forma como se colocam pobres contra miseráveis, o terrorismo consegue colocar vítimas contra vítimas. E tal como é assustador saber que não estamos a salvo de um ataque semelhante ao ocorrido em Paris, também é assustador constatar que alguns de nós, por medo, culpam quem anseia fugir do coração do terror do Daesh.
Na era das tecnologias da informação e comunicação, as notícias correm rapidamente o mundo, mas os boatos também usufruem da mesma facilidade mediática para reforçarem preconceitos e atiçarem o medo que temos em nós.
Defender uma Europa fortificada, de preferência com um fosso à sua volta, para impedir a entrada de quem quer fugir ao terror é como acusar Aristides Sousa Mendes de antipatriotismo por ter atribuído salvo-conduto aos refugiados judeus que o procuraram, durante a segunda guerra mundial, para fugir à perseguição do regime nazi.
Quem defende o não acolhimento de refugiados, por receio de que entre estes se encontrem terroristas, então terá de assumir que condena milhares de inocentes ao terror e à morte, às mãos do Daesh.
Considerar que não devemos receber refugiados, porque esse acolhimento roubará recursos a quem deles precisa no nosso país é comparar o incomparável. Insistir em tal comparação é agir, à imagem e semelhança, de um Portugal salazarista que colocou a bandeira a meia-haste quando Hitler se suicidou.
Quem quer ser solidário deveria saber que a solidariedade para com os nossos nunca será impeditiva da solidariedade para com os de fora, e vice-versa. Porque a distinção entre ‘nossos’ e ‘outros’ só faz sentido em guerra. E que eu saiba não estamos em guerra contra os refugiados.