Vós, que do vosso Olimpo...

A 20 de Abril, neste Jornal, Alexandre Pascoal (AP) brindou-nos com uma prosa que, embora imbuída de uma pretensa superioridade intelectual, acaba por, lamentavelmente, redundar, seja em desconhecimento de diversas matérias, seja num pragmatismo político acrítico.

AP rebelou-se contra o Voto de Protesto, apresentado pelo Bloco de Esquerda, no último Plenário (e aprovado por unanimidade), contra a abertura, no pólo de Ponta Delgada da Universidade dos Açores (UAç), de uma licenciatura em Ciências do Mar, em desfavor do pólo da Horta.

Entre outros ‘mimos’, apelida essa iniciativa de grosseira intrusão, num acto de gestão de uma entidade autónoma, infere que os/as deputados/as não têm legitimidade científica para opinarem sobre tal matéria, conclui que esta licenciatura tem de existir onde existem melhores condições científicas e infraestruturais e, finalmente, perora sobre a má condição financeira da nossa Universidade.

Ora, então, vamos por pontos!

Desde logo, convenhamos que é fácil fazer, no abstracto, a defesa da tripolaridade da UAç. Mais difícil é ser consequente com esta defesa, em casos concretos e até contraditórios.

A Universidade dos Açores é uma entidade pública, paga com dinheiros públicos e, também por isso, não está, nem acima, nem imune à crítica pelas suas decisões. Confundir Autonomia Universitária com imunidade à crítica é um atropelo à democracia, é não saber o que é a Autonomia Universitária. Pessoalmente, tive o privilégio de aprender, com as vergastadas da PIDE e dos ‘gorilas’, quão importante é defender este tipo de autonomia. Sendo certo que a idade não permitiu a AP viver esses inesquecíveis momentos, também não deixa de ser verdade que um pouco de investigação pode sempre colmatar esta falta de vivência…

Por outro lado, o nosso prezado articulista esconde que, no referido Voto, se fazia, exactamente, referência às dificuldades financeiras da UAç (e não só), bem como à necessidade dos poderes públicos articularem esforços, para uma boa gestão e coesão territorial.

Portanto, se determinadas áreas (culturais ou académicas) são “deficitárias”, qual será o caminho? Só se promovem as áreas comercialmente rentáveis? E o Estado não intervém para o desenvolvimento das outras áreas, ditas “deficitárias”? E onde fica o seu dever de manter uma oferta (cultural ou académica) diversificada e abrangente?

Por exemplo, em Évora, ou em Braga, ou em Vila real, ou em Faro, quantos/as doutorados/as existiam, nas universidades locais, quando estas ainda não existiam? É evidente que nenhum/a!

O Faial tem uma profunda tradição do Mar e tem um Departamento de investigação marinha, com credenciais mundiais. Não serão razões suficientes? Se juntarmos a isto a necessidade de fomentar uma coesão territorial séria (e bem sabemos qual o papel de uma universidade neste desiderato), não será lógico defender que os diferentes poderes olhem, inteligentemente, para a instalação de serviços públicos, ao invés da lógica capitalista, pura e dura, que obriga a instalá-los onde dão mais lucro, no imediato? E, já agora, quanto custa, em infraestruturas públicas, a concentração excessiva de populações, em cidades cada vez maiores?

Prezado AP, acredite que os/as tais incompetentes deputados/as - que, do seu Olimpo dourado, tanto despreza -, sabem o que estão a defender e porquê.