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Os acrobatas do déficit

Nos últimos meses foram várias as mudanças repentinas de posição na Assembleia da República sobre vários assuntos. Rever a nossa opinião sobre um determinado tema, mudar de ideias, reavaliar, é legítimo e até importante em política, mas não só. A análise das medidas, da implementação das políticas e da própria evolução da realidade pode ter como consequência, muitas vezes, acertos de rumo ou mudanças mais significativas. Portanto, não existe nada de fundamentalmente errado nisso.

O que já é menos normal são mudanças de posição sobre medidas que ainda nem sequer foram implementadas. Assistimos, no caso da recuperação de tempo de serviço dos professores não a um acerto de rumo, mas a uma verdadeira cambalhota de PSD e CDS. E o que provocou esta cambalhota não foi a  implementação da medida em si, mas o ultimato de António Costa. Que fator de fundo levou à mudança de posição de PSD e CDS? A perspetiva de perderem a bandeira das “contas certas”.

Mais recentemente foi a vez do PS dar o dito por não dito e anunciar um recuo na eliminação das taxas moderadoras. Não estando ainda o processo fechado, espera-se que esse recuo do PS seja também ele sujeito a mudança. Mas o que é certo é que a mudança de posição do PS e do Governo tem apenas o fator financeiro como justificação assumida.

“Não há dinheiro”, diz o PS. Carlos César corrobora, falando em risco de “um país com a mão à frente e outra atrás de novo” e regresso “do tempo da bancarrota". Pedro Passos Coelho não diria melhor. O miserabilismo, a ameaça do desastre financeiro e o medo dos diabos que nos assombram encontraram em Carlos César o melhor porta-voz.

“Não há dinheiro” deve ser por isso a frase de Vítor Gaspar mais citada no Conselho de Ministros e no Grupo Parlamentar do PS.

De facto, como refere Carlos César, têm existido "bloqueios", "constantes dificuldades" e "inércias" no que diz respeito ao investimento nos serviços públicos que tantas dificuldades têm criado às pessoas. Esses bloqueios, dificuldades e inércias devem-se acima de tudo ao dogma do déficit e à ambição de Centeno em brilhar entre os seus pares do Eurogrupo.

Não nos esqueçamos que por diversas vezes os números do déficit têm sido inferiores aos próprios objetivos do Governo. Quem paga esses “brilharetes” de Centeno são os serviços públicos, são as pessoas.

Nos Açores, as constantes dificuldades em construir o estabelecimento prisional de Ponta Delgada - agora perdido não só na bagacina mas também nos tribunais - devem-se à obsessão com o déficit;

Os bloqueios na construção dos radares meteorológicos devem-se à obsessão com o déficit;

As inércias no processo de descontaminação dos solos e aquíferos da ilha Terceira devem-se à obsessão com o déficit. E por aí fora, poderíamos continuar. O reverso da medalha é um excedente orçamental de 884 milhões de euros que Centeno apresentou com ar de felicidade.

A cega militância do PS pelas regras europeias do déficit tem sido o principal entrave ao investimento público no país. E os recentes mortais à retaguarda de PS, PSD e CDS na Assembleia da República têm como denominador comum a escolha das metas europeias do déficit em detrimento dos serviços públicos e do investimento público. PS, PSD e CDS olham para os números e esquecem-se das pessoas.