O verão tem destas coisas, sai-se do real para entrar numa tempestade amiga, e submetermo-nos ao inesperado, e por isso até este “Agora Este!”, deixa a arquitectura, para em calções saborear o imprevisto.
Fugido ao cordão sanitário estabelecido pelo calor, pelos fogos e pela densidade de irrequietos drones, rumei a norte.
O primeiro confronto, amigável, pois claro, foi com a taxa turística local, indexada ao valor da diária da estadia, com percentagens a rondar os 20%.
Passou logo ali, de deixar de ser uma taxa para ser um imposto, que no total rondou o valor de uma das minhas prestações do IMI.
Que o engenheiro Frederico não leia isto, não saiba...
E lembrei-me logo do nosso pavor em aplicá-la, que se indexou ao valor do “fino” por noite, quando ali o tal imposto ronda um almoço, convenientemente regado.
O segundo confronto, foi quando chegado ao hotel, ao fazer o registo, o “check in” (for papers), e paga a taxa turística, o tal imposto, me é convenientemente explicada a política ambiental processada pelo hotel, e que nesse quadro, caso eu participasse das mesmas preocupações, refletidas na poupança de água e energia, poderia assumi-las na prática, prescindindo do serviço de limpeza do quarto.
Sinceramente, tocou-me! Mexeu comigo, aquela explicação em inglês, in english (for papers), levou-me a um qualquer congresso, ao tipo de coisa, mesmo séria.
É claro que ao prescindir daquele serviço, estava a ser amigo do ambiente, a proporcionar uma enorme poupança de água e energia, e por isso mesmo, consciente, aderi, confirmando prescindir daquele serviço.
Dir-me-ia então o recepcionista, que o meu magnânimo gesto merecia um testemunho de gratidão por parte da gerência, e propôs-me, que escolhesse, um dos constantes da lista que me apresentou.
Da lista, escolhi a garrafa de vinho tinto, e logo dei comigo a pensar, como a beber vinho se ganha energia e se poupa água!
Sinceramente nunca o tinha pensado!
Afinal, amigo do ambiente, mas muito pouco esclarecido, e de prática duvidosa.
E então, naquelas noites emocionado com a minha prática ambiental, agora mais esclarecido, levantava o copo saudando o ambiente, e claro, poupando água.
E até já não lavava os dentes, mas passava-lhes a língua saboreando a poupança, que maior será, quanto melhor for o vinho.
Finda a estadia amiga do ambiente, lembrei-me que esta será uma boa medida a implementar pela hotelaria para a Graciosa e Pico, e até talvez até, para os Biscoitos na Terceira, onde sobra vinho e falta água.
Nas deambulações pelas cidades, pelos seus cascos velhos, deu para verificar o respeito, aqui esquecido, pela continuidade, onde o contemporâneo não copia, respeita e não acrescenta dissonâncias, assegurando o seu carácter.
Ou as enormes áreas pedonais, sem horror ao vazio, cheias de gente, sem massacre da cargas e descargas, carros a cavalo nos passeios, ou desregrados tapumes de obra, onde o comércio fluorescente prospera, espaços ausentes de viaturas, porque convenientemente armazenadas em silos integrados na malha urbana, complementadas por áreas verdes, ou tão simplesmente, por alinhamentos arbóreos, que sombreiam passeios, que na sua dimensão e desempeno asseguram acessibilidades.
Mobilidade entregue a transportes públicos frequentes, cumpridores de horários, e de baixo custo.
Trânsito automóvel moderado na quantidade e velocidade.
Faixas para bicicletas de dimensão considerável, convenientemente independentes de passeios.
Ausência absoluta de trotinetes. Básico, e parece fácil, mas para cá, não será, ou não lhe apreciamos o engenho.
Anunciando o “lugar do amanhã”, na poupança de energia política, mantemos hoje o inadequado “lugar de ontem”.
Como remate de experiência a visualização do filme “Sofia - Setembro de 1963” de Hugo Pereira e Vanessa Duarte, uma recriação da viagem de Sophia de Melo Breyner à Grécia que confronta a memória poética da escritora com a realidade da Grécia contemporânea, um “olhar calmo e sem alarido” de que nos falava Vitorino Nemésio, sobre o atual alarido que não o era.
E a exposição de fotografia de Martin Parr, sobre os tempos livres, o consumismo, onde se propaga o alarido.
Dois olhares tão diferentes, que nos interrogam sobre os nossos tempos livres .