Na semana passada discorreu-se neste espaço sobre como nos levam a aceitar que só existe um caminho possível e que ele consiste no que deve ser considerado a opção moderada. Permitam-me recuperar as ideias principais sucintamente.
São vários os exemplos no discurso político que incentivam a que se desvalorize a ideologia, desde slogans, a expressões populares, tendo muitos agentes políticos apoiado essa posição. As eleições autárquicas como um todo são um bom exemplo, uma vez que a perceção geral é que são umas eleições sobre problemas muito específicos sem enquadramentos ideológicos – nem falando da sua redução a concursos de popularidade. Trata-se de uma falácia: o mesmo problema pode ser resolvido de formas diferentes. Perante esta objeção que me parece intuitiva, o sistema precave-se fazendo-nos crer que só algumas soluções fazem sentido – quer seja por serem consideradas como «senso-comum» ou exequíveis. Se olharmos para quem governou o país nas últimas décadas percebemos as estreitas balizas por onde andámos. Cria-se a ideia de um «centro», algo que não é de um lado, nem de outro, e semeia-se nele a «virtude».
Antes de seguir, permitam-me um esclarecimento: quando falo em sistema, refiro-me à visão neoliberal (advoga a desregulação económica). Por vezes evita-se a utilização desses palavrões, mas parece-me que isso é tornar o assunto obscuro, um adversário sem rosto, e estupidificar o leitor – bem sei que pode ser uma forma de não afugentar quem lê, mas acho que somos todos crescidos para não nos atirarmos para o chão a chorar quando lemos algo com o qual não concordamos (pelo menos incialmente).
Explorámos a retórica que utilizam, mas hoje damos uns passos atrás e vejamos que mecanismos do nosso dia-a-dia nos fazem crer neste fatalismo. Um fatalismo que convence um funcionário a receber o salário mínimo que não vale a pena reivindicar mais, por não ser possível.
A forma mais óbvia de o fazer é cortando o mal pela raiz: uma educação limitada, que não coloque o indivíduo em contacto com a pluralidade. O desincentivo à leitura é um ótimo exemplo, a leitura estimula a imaginação e coloca-nos em contacto com outros modos de pensar. É absolutamente distópico como hoje é possível um governo sentir-se legitimado a extinguir o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares sem qualquer explicação. Estes mecanismos de formatação estão cada vez mais evidentes e são assumidos em alto e bom som.
O outro mecanismo é aquele que permeia o nosso quotidiano: esgotar-nos. Mesmo quem tem algum tempo depois do trabalho e de cuidar da família, sente que não tem tempo, justamente por não ter qualquer energia. Isso significa que não há energia para olharmos criticamente esta realidade. Vencem-nos pelo cansaço. Funciona tão bem que nos sentimos mal de nãos «sermos produtivos», ou seja, ainda queremos sobrecarregar-nos mais. Somos cúmplices da nossa desgraça por sermos uma engrenagem no ciclo. Crescemos formatados para a competição num habitat que chamamos de mercado de trabalho, o nosso objetivo é nadar em dinheiro, desconfiamos do outro, não lhe esticamos a mão, não percebemos que é uma isca, que nos prometem um céu ao qual estamos vedados.
É difícil enfrentar essa realidade, trata-se de tomar um balde de água fria e perceber que os adversários são os donos disto tudo. Parece que estamos contra a corrente, a certo ponto, sentimo-nos sozinhos. Mas não estamos: existe muita gente que sabe que outro mundo é possível. Temos de reivindicar os espaços e criar a comunidade que queremos nas nossas mãos.