Se há algo que se normalizou no espaço público, é a mentira. A abertura à desinformação não é algo que nos espante particularmente, afinal há já muito que se diz que «todos os políticos são mentirosos». Associamos mentira à prática política. Daí à indiferença sobre qual é a verdade, é um passinho. Podia alongar-me a falar neste assunto, mas ainda na semana passada tentei mostrar como a desinformação parte de um mecanismo para nos dividir de forma a se manter um sistema que nos é prejudicial. Permitam-me hoje abordar uma das mentiras que me parece mais gritante, e, no entanto, das mais estruturais do atual debate político. Uma com a qual esbarramos a cada slogan. Uma que a mais simples lógica rebate. Refiro-me à mentira de que os movimentos conservadores, particularmente os demagógicos de extrema-direita, são paladinos da Liberdade.
É a palavra que a extrema-direita tem sempre à mão. Estas semanas têm sido marcadas pela política norte-americana que nos traz um perfeito exemplo disto. Estas pessoas afirmam-se como defensoras da Liberdade. O valor que nos confere autonomia (palavra de origem grega que significa a lei de nós próprios). A Liberdade é a nossa possibilidade de emancipação, de podermos agir e ser como bem entendermos – naquele que é o quadro legal, ou seja, dentro do respeito pelo outro. Este é aliás o único que a Liberdade pode encontrar a esta luz: a Liberdade do outro. Dividamos a apropriação da Liberdade pela extrema-direita em dois momentos: a reação e a ofensiva.
A Liberdade entra no vocabulário da extrema-direita certamente por ser uma palavra bonita, algo com que todos nos queremos identificar. Não obstante, ao olharmos para a retórica desse movimento apercebemo-nos que a Liberdade é encarada primeiramente como Liberdade de expressão: aquilo que é propagado é que existe uma agenda woke que estabelece uma cultura de cancelamento (silenciamento) sobre aqueles que discordam dessa agenda. Normalmente, são os grupos feministas ou queer aqueles acusados de o fazer, mas também aqui podemos acrescentar ambientalistas, pacifistas,… Ou seja, o que a extrema-direita reivindica é o suposto direito a poder ser misógino ou xenófobo, por ser Liberdade de expressão. Dentro deste raciocínio está uma mentira: a cultura de cancelamento não existe em Portugal e mesmo nos EUA aquilo que mais se vê são vozes que propagam o seu discurso de ódio pelas redes sociais, pelas televisões, pelos jornais, pelos livros,… afirmando estarem a ser canceladas, mas a fazê-lo literalmente com acesso a todos os meios de comunicação. O raciocínio em si também é uma mentira: discursos que incitam ao ódio segregam e matam, não são um exercício de Liberdade, mas de libertinagem por condicionar a Liberdade do outro.
Mas não queria avançar já, vejamos o segundo momento. Perante a suposta perda da possibilidade de tudo dizer, a solução é restringir narrativas. A solução a não ter de se respeitar pessoas trans é eliminá-las legalmente. A solução para se poder falar como bem entender de pessoas LGBT é banir das escolas livros que contenham essas temáticas.
É isto que me causa a maior espécie: como podemos olhar para alguém que pretende restringir a Liberdade do outro e dizer que esse é que é o defensor da Liberdade? A resposta não é difícil: é afirmando que existem Liberdades maiores ou menores dependendo de quem falamos – é a destruição do Estado de direito. A extrema-direita é incapaz de perceber que aquela terceira pessoa contra quem falam pode bem ser um filho, um pai, um amigo. Ao restringirmos a Liberdade do outro, restringimos a nossa própria Liberdade.