Vivemos numa vibrante atualidade. O tema que hoje domina o nosso dia são as eleições nos Estados Unidos da América. Talvez aborde alguns aspetos que me parecem importantes nelas, nomeadamente da retórica e formatos utilizados, no próximo artigo, já com uma pequena reflexão sobre os resultados. Mas a atualidade não se fica por aqui, é o suspense de outras eleições, mesmo em internas como dos conservadores britânicos onde se acentuou a deriva para a extrema-direita, ou as municipais brasileiras. Também podíamos discutir isto de olharmos a democracia como sinónimo de idas às urnas – a participação democrática acontece em qualquer segundo e se ela morre, é porque nos negamos a reconhecer a necessidade deste cuidado constante. Podíamos de novo falar das guerras que brotam pelo globo, principalmente aquelas que estão às portas da Europa – até porque são essas que as televisões ocidentais prestam atenção. Até podíamos refletir sobre os desastres naturais, as tragédias humanitárias como a que aconteceu em Espanha, e perceber que eles são exceções que cada vez marcarão mais a nossa agenda – afinal, vivemos numa emergência climática. Podemos falar disso tudo, de toda esta complexidade e entropia que nos rodeia, mas quero aqui evidenciar o corolário: a ressonância desse caos que nos habita.
Tudo o que aqui foi dito reverbera em nós, na medida em que além de assimilarmos a informação, temos a preocupação daquelas que são as suas consequências. Talvez ainda haja muita gente que não percebe como situações como estas afetam a sua vida, e provavelmente isso explica muita coisa, no entanto, ninguém perde pela demora. Propositadamente elenquei só exemplos estrangeiros, porque esses soam-nos longínquos. Permitam-me deixar aqui duas reportagens que me parecem importantes e que podem ter passado ao lado: uma sobre uma falta de democracia que pode existir na Madeira, mas que me parece ser espelho do que acontece em muitos lugares [1] – no mesmo dia também houve uma reportagem sobre a (falta de) liberdade de imprensa, também partindo da Madeira, onde se aborda o problema do jornalismo de comunicados -, outra sobre a violência que está a acontecer nas manifestações em Portugal, particularmente a atuação policial [2] – que já inclui jornalistas como vítimas. São algumas investigações recentes que me impactaram, espero que quem estiver a ler isto consiga arranjar algum tempo.
Mesmo quem diga que isto não importa, que aquilo que se quer é
Eu sou um jovem que vem de uma família que nunca passou dificuldades, nunca pude ter tudo, mas nunca me faltou nada. Estou no ensino superior, ainda por cima a estudar algo que gosto. Não obstante, dou por mim por vezes a pensar em como só o Euromilhões parece ser a solução para ter uma vida estável: conseguir ter um lar e criar uma família [3]. Aquilo que me disseram era que se tivesse boas notas e fosse estudar para o ensino superior ia estar bem na vida. Parece que já não é bem assim. E além das crises que nos encerram horizontes, vemos uma negação em curso da nossa possibilidade de exigir mudança – e não deixa de ser irónico que muitos dos políticos que, quais fanfarrões, bradam aos sete ventos pela mudança, são aqueles que mais nos querem limitar.
São tempos de impotência e, por isso mesmo, decisivos. Saibamos fazer ouvir a nossa voz.
[1] https://www.publico.pt/2024/10/13/sociedade/reportagem/madeira-especie-d...
[2] https://www.publico.pt/2024/11/03/sociedade/investigacao/anatomia-detenc...
[3] Que ninguém interprete isto como uma apologia ao jogo, antes pelo contrário, só piora a situação.