Tenho muito falado na urgência de uma estratégia, de um pensamento, interligado. Em concreto, como podemos aplicar esta noção? Para o ilustrar, usareis dois exemplos que me são próximos, como o são dos marienses – julgo que qualquer pessoa tem contexto suficiente para compreendê-los plenamente.
Algumas ilhas açorianas não contam com a presença de varroa, um ácaro prejudicial às abelhas. Trata-se de uma caraterística praticamente única no globo. Santa Maria é uma dessas ilhas, já havendo vários produtores a colocar mel no mercado. É um produto de alto valor, totalmente biológico. Havendo espaço no mercado e boas condições para se implantar, é uma excelente oportunidade de diversificação económica. Como integrar? Através de parcerias com os serviços florestais, no sentido de perceber como o ecossistema mariense potencia essa exploração sustentadamente – por exemplo, uma definição de locais de silva-mansa. Infelizmente a nossa floresta endémica está ameaçada por espécies invasoras, pelo que há uma grande oportunidade de diálogo entre o setor agropecuário e florestal, no sentido de, preservando a ilha, diversificar a economia. Ainda na questão do mel, as entidades públicas e privadas também podem ser incentivadas a ter plantas melíferas, havendo aqui uma interseção com o urbanismo. Também é possível estimular um turismo profissional, com eventos em torno deste assunto a ocorrer em solo mariense – sendo que para isso é necessário ter a garantia de boas acessibilidades. Seria, também, muito positivo que houvesse, pelo menos, um curso profissional que desse uma formação inicial aos jovens que pretendem ser produtores, sendo que isto deve ser acompanhado de apoios ao início da exploração, havendo esse interesse.
O outro exemplo rende-se com a zona do aeroporto. Santa Maria tem parte da sua identidade vinculada a este espaço, pelas décadas, em meados do século passada, de efervescência económica e cultural decorrentes da presença do aeroporto internacional. Dentro da ilha, onde as garrafas eram de barro, havia uma pequena cidade de chapa e alumínio. O declínio do aeroporto foi um duro golpe. Hoje discutimos a sua reabertura noturna, uma migalha – um tema particularmente embaraçoso, porque bastaria a contratação de um profissional, algo que não devia custar à ANA, uma vez que tem lucro na casa dos 300 milhões de euros. O nosso aeroporto tem uma potencialidade de aumentar de novo a sua importância e com isso gerar emprego e receita. Mas também é a oportunidade de pensarmos em toda a sua área: no parque habitacional, talvez a construção de novos com inspiração nesses, uma reabilitação de infraestrutura para fins públicos, como a musealização da torre antiga, um combate a infestantes, com um projeto de arquitetura paisagista,…
Agora, para isto, aquilo que precisamos é de investigação: mobilizar os recursos da Universidade dos Açores para produzir conhecimento científico sobre Santa Maria, tal como a réplica açoriana desta proposta. Temos de enunciar os grandes temas e reunir em seu torno equipas multidisciplinares, cada um com as suas visões e intersetá-las. Não quero que esse estudo, por exemplo, diga que se deve investir na reabilitação de casas devolutas: quero que digam quantas casas devolutas há, a sua localização, a sua tipologia, uma sondagem com as intenções dos proprietários, em que paisagem estão inseridas,… É à política que cabe o estabelecimento de um percurso, mas nunca se pode descurar a informação e o conhecimento.