Agora este!

Em recentes declarações, o Secretário de Estado da Mobilidade Urbana a propósito da derrapagem orçamental da obra do Metropolitano de Lisboa, referia que é normal que qualquer obra pública exceda o orçamento previsto no processo de concurso.
Pasme-se! No Japão, quando a arquiteta Zaha Hadid, Pritzker de Arquitetura, projetou o estádio olímpico de Tóquio acima do orçamento cabimentado para o efeito, foi-lhe rescindido o contrato, para o projeto ser entregue a arquiteto capaz de o respeitar, o que veio a acontecer com Kengo Kuma. Este facto ilustra bem a diferença de mentalidades e consequentes procedimentos e resultados, que a inconsciência na encomenda nos acarreta a cada passo, a cada obra. Cada encomenda requer, ou devia, rigoroso escrutínio quer a priori, para que corresponda às reais necessidades e enquadramento, que constituirão o programa base, a escolha do tipo de concurso que melhor se adeque, e a seleção da equipa de projeto; quer a posteriori em projeto, e por isso é que o seu desenvolvimento se faz em diferentes fases, ou devia, sob pena de à falta de acompanhamento e análise, se obter um qualquer projeto fora do requerido nas suas diversas componentes, que contaminará a obra com erros, omissões e outras trapalhadas conducentes às “normais” derrapagens de custos e prazos. Se construído, o mais das vezes, não se acompanha, porque o orçamento jamais previu manutenção, muitas delas nem equipamento, e muito menos custos de exploração, e por isso, se à partida não for logo um elefante branco, deixa-se degradar até que fique fora da razoabilidade de utilização, para todo o processo recomeçar de novo. Sem planeamento, se não for possível a adjudicação direta, elabora-se um qualquer programa base, sem se aferir o que quer que seja, que pouco mais terá que áreas e baixos custos de projeto, optando por um tipo de concurso que quase não contempla critérios de avaliação e seleção, que pouco irão para além de preço e prazo, considerando que assim se está conseguindo enorme rapidez e baixos custos. Nesta corrida, sem tempo e vontade para pensar no que quer que seja, na inconsciência do que a encomenda exige, convencidos de que qualquer um encomenda o que quer que seja, somos por isso, pródigos no colecionar de elefantes brancos, derrapagens em custos e prazos, e pilhas de maus préstimos traduzidos em todo o tipo de desadequações ao realmente necessário, que não será tão pouco, o encomendado. E se por vezes, não se dá conta do atribulado processo, senão quando surge o elefante branco, como foi o caso das piscinas da Povoação e do Nordeste, já noutros casos, como a por demais evidente Calheta de Pêro de Teive, os cães ladram e a caravana passa, mas neste caso, até nem sai dali, e os cães enrouqueceram, desistiram. Caso com processo de encomenda, sem fim à vista, também desgovernado, é o do Mercado da Graça, que logo na apresentação do projeto, em 2020, deixava inquietação, ao sê-lo sem autor do projeto, através de uma animação 3D que pouco mostrava, e sujeita a suposto escrutínio público, através de pequenos postais que se deitavam numa caixa, e que me fez acreditar que ninguém os leria. É claro que deu para o torto, e o torto de averiguações, alterações, prorrogações continua... tudo no segredo dos deuses.
Há dias, “porque a centralidade da ilha justifica um orçamento robusto”, a Vice-Presidência anunciou a adjudicação direta do Estudo Prévio de Viabilidade para a Empreitada de Ampliação e Remodelação da Aerogare Civil das Lajes, que tem todos os ingredientes para vir a integrar a coleção, como à partida a denominação da encomenda já deixa supor, as especificidades de uma aerogare exigem, e a complexidade do existente apontam, face à escolha da empresa eleita.