Agora este!

De tanto ouvir, contrariado é certo, Secretários, Presidentes de Câmaras do Comércio, da Asta, da Visit Azores, entrevistas de muitos em torno da BTL, de responsáveis de diferentes Associações de Turismo e por aí fora, já quase me tinha convencido, de que para haver turismo era preciso:

- Não impor quaisquer limites de camas ou de todo e qualquer tipo de ocupação, ou taxa turística.

- Erradicar qualquer Plano de Ordenamento, fosse ele de Turismo ou Urbano.

- Ter um Cais de Cruzeiros.

- Ter vias marginais muradas por hotéis de 150 quartos, com piscina “sustentável”, a pouca distância do mar, de costas para a área urbana preexistente, que só envergonha.

- A mobilidade, na inexistência de transportes públicos, a reger-se pela ditadura do automóvel, para satisfação dos turistas e comércio automóvel.

- A destruição das lojas históricas para ocupação daqueles espaços pelo comércio de bugigangas.

- A invasão de lugares icónicos naturais, conducente à sua destruição, com preservação e ampliação de parques de estacionamento automóvel e instalações sanitárias.

Quase rendido a estas máximas, a este desígnio, trituradoras da nossa identidade, arrastado pela máquina fotográfica que qualquer turista deve acartar ao pescoço, quando não tem um telemóvel que a possa substituir, como é o meu caso, e levado por festival de fotografia que nesta edição levava várias exposições em torno da identidade de Saintes Maries de la Mer, decidi-me a constatá-la in loco.

Cidade no delta do Reno, qual fajã, não vulcânica, mas aluvionar, inserida em área natural classificada, que não pactua com expansões urbanas, ou desrespeito pelas normas urbanísticas que se leem bem, por draconianas, digo eu:

- Tecido urbano gerado por edifícios em banda, sem recurso a projetos tipo, e por isso assumindo-se individualmente, sem uniformização de quarteirões, e sem desperdício de espaços mortos de logradouro.

- Inexistência de cais de cruzeiros, apenas porto de pesca e marina, ambos de reduzida dimensão e enorme simplicidade.

- Mobilidade ditada pela “ditadura” do peão, das pessoas (tão faladas pelos nossos políticos), assegurada por parqueamento automóvel gratuito na envolvente do núcleo urbano, e parqueamento pago em todas as restantes áreas, incluindo nos acessos às praias; inexistência universal de lancis, garantidora de acessibilidade universal; exclusão de tráfego rodoviário em muitas vias, salvaguardadas emergências, abastecimentos e recolha de resíduos em horário próprio.

- Altura dos edifícios até três pisos, incluindo hotéis, que se dimensionam nas sessenta camas, trinta quartos, sem piscina porque o mar e a praia estão por perto, e a sua classificação não tem a ver com a sua dimensão, mas com o serviço prestado.

Esta altura salvaguarda a referência espacial da igreja acastelada, visível de todo o lado, marco central do aglomerado.

- Cor única do edificado o branco, com caixilharias de cor, mas de reduzida paleta.

- Coberturas inclinadas, revestidas a telha de barro vermelho.

Esta “uniformização”, castradora do ego dos arquitetos, facto que releva a componente social da arquitetura, permite uma forte identidade do conjunto de que dele apenas sobressai a igreja, elemento identitário e de referência de todo o aglomerado, como referi.

- Reforçando a desmotivação pela utilização de viatura própria, em opção do transporte público, o bilhete de transporte para o percurso Rales (cidade mais próxima)/ Saintes Maries de la Mer, cerca de ok, uma hora de caminho em autocarro custa 1€. Não dá para acreditar!

Afinal pode fazer-se diferente, e até há quem faça!