"Ponta Delgada é uma cidade em crescimento constante”, afirmou Jaime Gama na celebração dos 480 anos da Cidade, que ocorreu no Coliseu Micaelense a 2 de Abril.
O salutar crescimento constante, contudo quando é repentino, acelerado, ausente de planeamento, deixa de o ser, como se constata neste últimos cinquenta anos, adquirindo marcas que fragilizam o seu tecido.
O abandono constante de planos, do pensar planeado, capaz de conduzir esse crescimento de forma harmónica na preservação de uma identidade, e de um crescimento na continuidade que o valorizaria, preservando o seu património e assegurando a transição e o desenho das novas expansões urbanas, foi a diretiva constante, desse crescimento.
A cada plano encomendado, preferiu-se sempre um próximo, um remeter tudo para um princípio, um recomeço que de seguida, também se porá de lado, aproveitando-se de cada um, apenas migalhas.
Sacudidos entre 1946 e 1994 os diversos planos encomendados, num total, salvo erro, de sete, entrámos na era dos Planos Diretores Municipais.
Nestas circunstâncias, as novas expansões orientadas meramente pela rentabilização do terreno em que se inserem, surgem desenquadradas no todo, mutilando o casco histórico, ou as áreas próximas a que desajustadamente se ligam.
Pensadas apenas na construção sem regra, crescem em volume, menosprezando o espaço público, que se reduz a estreitos corredores automóveis, sem passeios dotados de largura e condições de acessibilidade, praças, ou espaços verdes, num constante horror ao vazio.
As mãos livres que a malha larga dos PDM viabiliza, permitem o crescimento constante, tantas vezes à custa das áreas agrícolas ou florestais, e o tecido urbano cresce numa manta de retalhos, ou como patch work (for papers), onde as novas expansões não deixam espaços livres, muito menos espaços públicos, incluindo as da malha urbana antiga.
Neste quadro desconcertante, de ausência de regras até 2000, ou de regras incentivadoras da densificação e aumento desconcertado de volumetrias, no desrespeito pela continuidade, assistimos a intervenções diversas que o tempo parece dissolver, como foi o da torre do Sol Mar, e onde as em perspetiva ou em curso, nos surgem com outro vigor de inquietação.
Se “a Capital Portuguesa da Cultura 2026 é um palco de reflexão”, como nos afirmou o Presidente da Câmara de Ponta Delgada, seria interessante que à semelhança do que fez o “Manifesto Reinventar a Estratégia Urbana de Ponta Delgada”, que devemos ao arquiteto André Patrão, onde estiveram presentes os então candidatos à CMPD, aí se debatessem recentes e vetustas intervenções no tecido da Cidade e a sua herança.
E não nos faltariam exemplos:
- A Calheta de Pero de Teive, em convulsão desde 1999, com o anunciado contágio ao tecido próximo num eventual prolongamento da Avenida D. João III, e da Fundição da Calheta e espaço adjacente.
- O condomínio fechado dos terrenos da antiga fábrica do leite, também na Calheta, de onde nem os painéis de azulejo de Domingos Rebelo terão sobrado, muito menos espaço público.
- O outro condomínio fechado a sul do Jardim António Borges, desrespeitador da Capela aí existente, ou do conjunto urbano do Beco, impedindo a continuidade.
- A contestada urbanização, no âmbito do PRR, na Fajã de Baixo.
- A prometida, pelo menos desde 2021, requalificação da Orla Marítima de Santa Clara.
- Ou na contracorrente o caso singular da perspetiva de requalificação da Fábrica do Açúcar da Sinaga, promovida pela Secretaria Regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública, com o apoio da Secção Regional dos Açores da Ordem dos Arquitetos.
Quem sabe se não seria mais um espetáculo interessante?