Desperto por mão amiga, disponibilizo-me à subida do trilho da Lagoa do Fogo, com início no Lugar da Praia, para me confrontar com a construção de um empreendimento turístico, situado a cerca de 300 metros de altitude e a 1 quilómetro do final da via pavimentada, início do trilho.
Aí localizava-se a fábrica da espadana, cuja ruína o projeto diz ir “reconduzir”.
A sua localização na estrutura ecológica complementar, em área agrícola e florestal, que a ruína da fábrica pretende justificar, fora de contexto urbano infraestruturado, por incrível que pareça, não deixa de ser absolutamente regulamentar no quadro dos atuais Planos Diretores Municipais (PDM), e obviamente no que lhe assiste, onde os empreendimentos turísticos se podem distribuir pelas áreas agrícolas, florestais ou até, mais recentemente nos currais de vinha.
A sua localização em “altitude”, fora de qualquer contexto urbano, levou-me forçosamente, pese a época e a respetiva dimensão, ao Monte Palace do século passado (!), mas que o nevoeiro amigo, ambos abraça e esconde.
Siza Vieira, então auscultado sobre aquele projeto, diria “que as condições não eram aconselháveis à sua localização”, tal como as daqui, digo eu, mas o PDM hoje, tem outro olhar.
Restaria o «bom senso», que não está regulamentado, e ninguém sabe bem o que é; talvez mesmo, nem a IA.
E aqui, saltaram-me ao caminho dois parágrafos, que aquando da anunciada “conversão” do Monte Palace em 2014, e que ainda não teve lugar, então escrevi em “Arquitectura XXIV” publicada no Correio dos Açores em abril daquele ano:
... “O final dos anos 80, inicio dos anos 90 do século passado, marca a viragem naquilo que até então era tido como importante, a avaliação integral dos fatores preponderantes para o empreendimento, conducentes a um programa adequado ao local, à sua componente social e económica, garantidoras da sua sustentabilidade.”...
... “Passou para primeiro plano a garantia de um qualquer financiamento, alicerçado em estudos económicos manipulados à medida, de uma qualquer ideia surgida de outras vivências, ou copiada de outros territórios, objetivada por lucros imediatos, incapaz de por si só estruturar um programa sustentável, e em que a velocidade da sua elaboração, deixa cair aspetos determinantes das suas diferentes componentes; ou propositadamente por comprometedores, são esquecidos.”...
A ausência de infraestruturas, questiona desde logo o tratamento de esgotos, num concelho onde “tradicionalmente” não se tratam, convenientemente.
Idem, idem, na recolha e condução das águas pluviais das novas impermeabilizações determinadas pelas coberturas, pelos parqueamentos, e vias de acesso e circulação, num contexto adverso de constituição do solo.
O abastecimento de água socorre-se das nascentes residentes, conforme descrição dos painéis publicitários, conferindo-lhe esta relação com o local e a natureza, que as impermeabilizações, os esgotos e os resíduos contrariam e por isso é melhor não se falar.
O atual acesso de via única estreita, e forte pendente, faz-nos pensar na sua recondução, que ainda que limitada pela preexistência no acesso à estrada regional, pode e deve reconfigurar-se naqueles dois parâmetros, no restante traçado a pavimentar, assegurando as duas vias de circulação e inclinações consentâneas, onde a constituição do solo não ajuda, de modo a acolher o transito automóvel dos seus visitantes, dos trabalhadores, e o da diária manutenção no que toca a abastecimentos e recolha de resíduos, não esquecendo a segurança, implicando áreas de impermeabilização de dimensão e consequentes custos consideráveis, cuja responsabilidade de construção e futura manutenção, no atual quadro de proteção dos empreendimentos turísticos, não se deixam adivinhar, e os painéis, porque publicitários também, nada referem.
Ao equilíbrio natural do sítio, que reconhecemos, por isso mesmo, contrapomos a sua alteração.