Ainda vamos ganhar a Eurovisão

Bem sei que não será uma opinião consensual, «uma música muito bonita, mas não eurovisiva», mas convém falar de outra coisa além dos dissabores da política internacional para manter a sanidade. Hoje trago a «Deslocado», dos NAPA, a vencedora por um triz do Festival da Canção 2025.

Este ano, por coincidência com outros compromissos, com muita pena minha, não consegui acompanhar as semifinais do Festival. Recuso-me a vê-las desfasadas ou numa altura posterior, pelo que não as vi de todo. Recuso-me, porque a magia do Festival é colocar centenas de milhares de portugueses (no passado eram milhões) unidos na celebração de cultura. Principalmente numa cultura muitas vezes experimental, um palco público para se darem a conhecer novos artistas e sonoridades. Julgo que este é um grande orgulho para a televisão pública. Aplico o mesmo princípio à Eurovisão que agrega centenas de milhões de pessoas, consistentemente mais de 160 milhões através das televisões. Se existe uma boa televisão, então será esta que apesar de nos colocar nas nossas casas, estabelece pontes entre nós.

São muitas as discórdias que podemos ter, até porque existe um modelo competitivo que nos direciona para a escolha de clubes, mas nem tem de ser assim. Na verdade, nem temos de apoiar uma música, não temos de apoiar a escolhida portuguesa, só por ser «nossa», até podemos apoiar a de outro país. Estes momentos são de riqueza pela diversidade, não de fechamento sobre nós. É uma grande festa. Muitas são os que dizem que «antes é que era bom», mas o saudosismo há em todo o lado e significa o que significa. Existe um grande público jovem com um espírito cosmopolita que assegurará este Festival como um momento de fraternidade.

Mas olhemos para a música vencedora, é sobre ela que quero falar. «Deslocado» tem uma melodia lindíssima e uma letra extremamente elegante. Talvez o único ponto que fico com pena de não ter sido alterado é a utilização direta da referência à Madeira: tratando-se de um sentimento tão universalizável, é pena esta menção restritiva, que podia ter sido alterada por uma subtil rima; não obstante percebo que seja justamente essa ilha que lhes é berço a grande protagonista e a base de toda a música, sendo, na perspetiva da banda, uma justa homenagem.

«Deslocado» descreve o sentimento de vazio de alguém que vive fora do local das suas raízes. O próprio nome já o indica, podendo facilmente ser um hino de qualquer emigrante, mas este nome é uma subtil abreviatura para «estudante deslocado». É esta a realidade que dá origem à letra e que me parece bastante presente no verso «Por mais que possa parecer / Eu nunca vou pertencer àquela cidade». Nós de facto estamos integrados numa vida social e académica, os nossos familiares provavelmente até acham que gostamos mais de estar na «cidade», mas a verdade é que esse local em nós é pensado sempre como um «aquela» e não «esta». Numa poética portuguesa com o recurso ao mar e à saudade temos referências tão diretas como metafóricas que ecoam em qualquer pessoa (mesmo naquelas que sempre viveram no mesmo local). A melodia fica na cabeça, com uma boa campanha e uma prestação em palco que consiga passar essa mensagem, esta música é bem capaz de conquistar um mundo que procura paz, harmonia, fraternidade, contra os senhores da guerra; uma música que não fala da guerra, mas na paz, aquela que é de cada um de nós enquanto indivíduos, mas que só existe por haver um «nós».

Concluo com o cerne do refrão: «O mar de gente / O Sol diferente / O monte de betão».

Vai-se a ver e afinal aqui sempre se esteve a falar de política.