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Álamo Meneses e os 40 Advogados

As festas de Verão são uma época de grandes animações, sempre bem regadas a alegria e boa disposição, conjugadas com devaneios e loucuras dignas de uma canção de Marco Paulo.

É a época dos festivais de música, das festas com amigos, ao cair do dia, dos piqueniques em família e dos Santos Populares.

Nos Açores, as festas incluem ainda os grandes ajuntamentos da Semana do Mar ou das Sanjoaninas, entre tantos outros que poderia mencionar. Talvez por isso, e também por causa desse rebuliço, possa ter passado despercebido à e ao leitor menos atento as recentes intervenções do presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo durante a mais recente assembleia do município, acerca das obras do novo Mercado da cidade.

Segundo notícia do Diário Insular, José Gabriel Álamo Meneses terá declarado, perante os presentes e a comunicação social associada, que as obras estavam paradas, é verdade, e que tal era por “culpa” do património. Até aí, nada de novo. É do conhecimento comum que a política da Câmara Municipal no atual executivo, bem como em alguns dos anteriores, passou pela total descrença no património de Angra. Que, por acaso, até é considerado património mundial, pela UNESCO. Pelo menos até à presente data.

Não acredito que tal distinção se aguente muito mais tempo.

Só que Álamo Meneses foi mais longe, nas suas intervenções, e encarnou uma personagem saída de um qualquer programa de humor de Raul Solnado, Gato Fedorento ou Monthy Python. Então, não é que a preocupação do senhor presidente, perante as questões levantadas pelas autoridades máximas da UNESCO, prendeu-se com contratar uma empresa de advogados para resolver o assunto? Sim, leram bem. O presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo preferiu investir o dinheiro público numa empresa de advogados “especializados” para levar a sua “birra” destrutiva avante, em vez de utilizar essa mesma verba para especializar a sua equipa, e reunir-se de pessoas verdadeiramente capacitadas para poder discutir o assunto e arranjar soluções para beneficiar o concelho que gere.

Angra do Heroísmo não é património mundial da UNESCO só porque lhe apeteceu. Nem sequer o é por uma questão política, ou por algum devaneio das autoridades. Angra do Heroísmo é património mundial da UNESCO porque é uma das primeiras e principais cidades construídas na época dos Descobrimentos e da expansão europeia em direção ao novo mundo. É uma cidade de arquitetura própria e traçado já amplamente estudado por quem realmente percebe da matéria, com um papel fundamental nas escalas transatlânticas que ajudaram a construir a contemporaneidade. Talvez a equipa de advogados que Álamo Meneses decidiu contratar possa eventualmente explicar melhor esse valor patrimonial, assumindo que alguma ou algum terá formação paralela nessas áreas. Não tendo, trata-se apenas de empregar dinheiro público na justificação de uma má opção que poderá muito bem ser o último prego no caixão da distinção mundial da cidade. Isso se o que se passa no Porto de Pipas não resolver o assunto primeiro, claro está.

Resta perguntar à edilidade, e ao Governo Regional dos Açores, se as autoridades estão preparadas para deixar cair essa marca única da Região. Aproveito ainda para perguntar a todas e todos os leitores se estamos dispostos a deixar que o município continue a investir em projetos destrutivos, que poderiam muito bem existir, de forma mais ponderada e sustentável, sem detrimento de apoiar o comércio local, que bem merece. A importância parece centrar-se, como sempre, no culto ao betão e a um progresso irreversível que vai deixar-nos sem passado, em prol de um futuro onde só alguns vão ter capacidade e poder de compra para visitar a cidade.

E a oposição? Situa-se onde? Não questiona este gasto do erário público numa empresa de advogados?