Uma das ideias que me parece mais consensual no senso comum é o horror à guerra. A aversão generalizada ao sofrimento. Quando vemos imagens de cenários bélicos a nossa empatia é convocada, sendo o lamento recorrente.
Nas conversas de circunstância não é rara a vez em que nos deparamos com algum comentário neste sentido, provavelmente lembrando uma notícia. Na nossa memória recente estão imagens da Ucrânia e de Gaza. Permitam-me hoje abordar aqui um pouco sobre estas últimas.
Os números [1] dão-nos conta de mais de 42 000 mortes desde o ataque do Hamas a 7 de outubro. Destas mortes, mais de 41 000 são de palestinianos, de entre os quais mais de 10 000 crianças. As Nações Unidas, o maior organismo diplomático mundial, já afirmou que vê indícios de genocídio [2]. Israel tem bombardeado continuamente alvos civis, incluindo hospitais e escolas. Quase 300 trabalhadores humanitários foram mortos, além de pelos menos 113 jornalistas. Israel tem dificultado a chegada de ajuda humanitária a Gaza.
Como chegámos aqui? Trata-se de uma questão demasiado complexa para tentar sumariar pelo que deixo aqui uma sugestão de leitura sobre a origem [3] e o desenvolvimento deste conflito [4] que já sucede há décadas.
Com este texto o que gostava era de deixar alguns alertas. Ou melhor, um e algumas informações: a empatia cega [5]. Ao sermos constantemente confrontados com estas imagens traumáticas, acabamos por nos esgotar. Ainda decorre uma guerra na Ucrânia, mas onde ficaram as demonstrações de apoio? Mais, acabamos por nos focar no sofrimento daquelas pessoas. Qual é o quadro geral, o que está aqui em jogo?
Nesta senda, gostava de chamar a atenção para o duplo-critério que o ocidente tem tido: sancionando e excluindo a Rússia quanto mais é possível, Israel ainda não teve qualquer percalço - apesar de até já ter morto mais civis do que a Rússia! Como é possível este olhar para o lado? O cenário torna-se ainda mais inexplicável com as intervenções israelitas no Irão e no Líbano, neste último levando à morte de quase uma centena de civis. Igualmente inexplicável é o facto de ser sempre noticiado a recusa do Hamas num cessar-fogo, quando já várias vezes houve um acordo diplomático deste grupo com mediadores e quando Netanyahu já deixou claro que não está interessado num [6].
Mais, nos Estados Unidos vimos duas primárias democráticas atingirem os maiores valores de sempre no financiamento. Uma entidade israelita financiou com 25 milhões de dólares candidatos para fazerem frente àqueles que defenderam o fim do envio de armas para Israel [7].
A Alemanha expulsou Varoufakis por este defender a autodeterminação palestiniana [8].
Nestes casos vemos o antissemitismo a ser usado como desculpa para afastar qualquer chamada de atenção sobre Gaza, apesar de já inúmeras entidades internacionais estarem a falar no assunto. Resta afirmar que mesmo uma posição antissionista não é necessariamente antissemita, tanto que existem várias organizações de judeus que se manifestam contra o que está a acontecer.
[1] https://apnews.com/article/israel-hamas-gaza-war-palestinians-statistics-40000-7ebec13101f6d08fe10cedbf5e172dde
[2] https://news.un.org/pt/story/2024/03/1829706
[3] https://www.nationalgeographic.pt/historia/israel-e-palestina-como-e-quando-comecou-conflito_4382
[4] https://www.publico.pt/2023/10/11/p3/perguntaserespostas/explicador-comecou-conflito-israelpalestina-sao-colonatos-2066347
[5] Bregman, R.; Humanidade: Uma História de Esperança; Bertrand Editora; 2021.
[6]https://www.publico.pt/2024/08/20/mundo/noticia/netanyahu-concorda-proposta-continua-sabotar-cessarfogo-2101338
[7]https://theintercept.com/2024/08/24/dnc-aipac-squad-cori-bush-summer-lee/
[8]https://jacobin.com.br/2024/04/fui-banido-da-alemanha-por-defender-a-causa-palestina/