Alucinando

Confesso que por vezes não sei o que dizer. No tempo da imagem, em que o aspeto visual é o centro da atenção, seria de esperar que as imagens impactassem, contudo parece que o efeito é o oposto: o assoberbamento com a quantidade de imagens tornou-nos apáticos sobre elas, tornou-nos massas inerciais.

Da "Terra da Liberdade" chegam-nos imagens de pessoas que morreram às mãos da violência policial. Pessoas cujo crime foi oporem-se às políticas de ódio e autoritárias que emanam da Casa Branca, ou simplesmente existirem numa pele que o sistema insiste em criminalizar. A violência não é propriamente novidade; a história dessa nação foi erguida sobre alicerces de brutalidade sistémica. O que é novo é a sua transmissão em direto, sem qualquer tentativa de encobrimento. O que outrora era feito na sombra, hoje é conteúdo de feed. Práticas caraterísticas da Gestapo ou da PIDE, que julgávamos enterradas nos livros de história como avisos sombrios do passado, são agora documentadas à luz do dia e transmitidas em tempo real para os nossos telemóveis. Vemos agentes da autoridade a atuar como forças de ocupação contra os seus próprios cidadãos, e a normalização deste espetáculo macabro é, talvez, o aspeto mais aterrador do nosso tempo.

Como é possível ter chegado a este ponto? A resposta reside, em grande parte, no assoberbamento. Vivemos numa torrente contínua de estímulos visuais onde tudo tem o mesmo peso. A imagem de um homem asfixiado sob o joelho de um polícia compete pela nossa atenção com o anúncio de um novo automóvel ou com o vídeo viral de um animal de estimação. Esta saturação sensorial não nos torna mais informados; torna-nos dormentes. O horror, quando repetido ad nauseam e intercalado com o trivial, perde a sua capacidade de chocar. Transforma-se em ruído de fundo, numa banda sonora visual do colapso civilizacional que aceitamos como o "novo normal".

Ignoramos as crises, porque achamos que não são connosco. Mas esta é a grande armadilha da nossa era: somos vítimas deste sistema, mas facilmente nos tornamos cúmplices dele. Ao escolhermos o silêncio, ao desviarmos o olhar para não perturbar o nosso conforto, estamos a legitimar a violência. A nossa inércia é o combustível que alimenta a máquina de opressão. O sistema conta com a nossa exaustão e com o nosso cinismo para continuar a triturar vidas impunemente.

Mas nem tudo é escuridão. Felizmente há quem se mova, recusando a sedação coletiva. Vemos isso nas manifestações enormes nos Estados Unidos, onde multidões heterogéneas ocupam as ruas, desafiando o gás lacrimogéneo e os bastões, para gritar que a vida importa, que a dignidade não é negociável. Esses corpos em movimento, que se recusam a ser apenas espectadores da sua própria tragédia, são o lembrete de que a apatia não é um destino inevitável, mas uma escolha que podemos rejeitar. Há uma pulsão de vida que resiste, que se organiza e que exige justiça, provando que a solidariedade ainda é a arma mais poderosa contra o medo.

E por cá? Por Portugal, que a esperança permita que a história não se repita como farsa, nem como tragédia. Aproximam-se momentos decisivos. Que no dia 8 de fevereiro, e em todos os dias que se seguem, a voz dos opressores fique bem longe do poder. Porque a "Terra da Liberdade" não é um lugar geográfico, é uma construção diária. E se não queremos que as imagens de violência que hoje nos chocam se tornem o cenário da nossa própria realidade amanhã, temos de quebrar esta inércia. Temos de ser mais do que olhos que veem; temos de ser cidadãos que sentem e que agem.