Estamos no final de junho. Apesar de as autárquicas não estarem marcadas, já se começa a sentir a pressão de ir elaborando os programas eleitorais e construir as listas de candidatos. Está, portanto, na altura de nós, cidadãos filiados e independentes, pessoas de qualquer ideologia, nos chegarmos à frente.
É fácil irmos para os cafés falarmos mal do que se passa. É fácil protestarmos com os nossos botões. No entanto vivemos numa democracia representativa, onde existem assembleias constituídas para se refletir sobre os assuntos, apresentar várias perspetivas e tomar decisões em relação às suas soluções. Pessoas são livremente e universalmente eleitas para esses órgãos. Menosprezar este poder é um insulto ao 25 de abril e uma desconsideração perante todos os que sofreram para o obter.
Votar é o mínimo que qualquer cidadão que se preze deve fazer, no entanto permitam-me ir mais longe e retomar a linha inicial de pensamento: a participação ativa nas candidaturas.
Olhar para os políticos locais e criticá-los por inação ou alheação deve ser acompanhado por uma vontade de fazer melhor e avançar. Em cada lista só há um cabeça-de-lista, mas existem mais candidatos e os lugares a preencher são de número superior a um. Que se arregace mangas e se arranje a ousadia.
Que se note que não pretendo aqui afirmar que as pessoas não devem dar as suas opiniões, muito pelo contrário. Concordo muitas vezes com o que é dito. Por isso mesmo é frustrante ver que há ideias que são generalizadas, mas que não ganham força, porque esses alguéns não querem dar força ao movimento. Grandes desafios mais facilmente são ultrapassados com uma grande equipa.
É também angustiante ver que os movimentos demagógicos e de extrema-direita conseguem angariar pessoas com mais facilidade do que aqueles com ideias sensatas. Isto tudo junto leva-me a crer que estamos, enquanto comunidade, a dar as coisas por garantidas. Não podemos. Da mesma forma que a democracia vem, vai-se.
Deixem-me colocar aqui um poema de Miguel Torga, intitulado Dies Irae:
«Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!»
Se não queremos ser nós o sujeito poético destas quadras, tomemos uma ação! Quem tiver o mínimo de disponibilidade: nas autárquicas existem candidaturas de partidos políticos, de coligações e de grupos de cidadãos independentes, tentem se informar do que cada um defende e juntar-se ao processo. Estas eleições são esgotantes pelo elevado número de pessoas que movem e, principalmente para partidos mais pequenos, isso é um peso que em muito sobrecarrega as candidaturas. Até pode existir alguém para cabeça-de-lista, mas se mais ninguém quiser integrar a lista, então essa candidatura já era. A bem da pluralidade e da democracia: ganhe ousadia e aja!