Areias movediças

Temo estar sempre aqui a trazer assuntos que soem algo distantes de nós. Julgo que fique explícito o seu valor. Hoje poderia tentar olhar para as eleições alemãs, mas para evitar saturar este espaço com assuntos internacionais (que são muito nacionais também), passo para algo mais fundamental.

Hoje trago uma preocupação que me tem sido recorrente. Este será um texto mais de perguntas, na esperança de surgirem respostas. Qual o problema, afinal? Informação.

Muitas vezes se fala da nossa época como aquela da informação, até se diz que ela vale mais do que o outro (aludindo, por exemplo, à utilização de dados para publicidade personalizadas). Aquilo a que assistimos é a um aumento exponencial da informação. Refiro-me a livros [1], artigos científicos [2], mas também aos próprios dados presentes na internet [3]. Certamente que o aumento da formação, nomeadamente no ensino superior com produção académica, explica parte deste fenómeno [4], contudo, a produção diária de informação nas redes sociais, ou em sites pessoais, também constitui dados e certamente numa contribuição ainda maior.

A minha questão é como lidamos com este aumento da informação? Como encontramos o que queremos? Que ferramentas ou algoritmos devemos usar para filtrar essa informação?

Estas perguntas têm corolários muito diretos na pedagogia: que informação é relevante ser ensinada e faz mais sentido ensiná-la ou ensinar modos de pesquisa?

Não obstante, estende-se a mais áreas e o jornalismo encontra aqui um desafio sobre como processar a informação rapidamente (e devidamente), assegurando a narrativa da verdade, por oposição à desinformação que nunca foi tão fácil propagar.

No mundo científico até nos podemos perguntar se fazem sentido publicações individuais, ou em revistas que é necessário pagamento.

Talvez a IA consiga ajudar a processar informação, no sentido de conseguir indicar com maior precisão precisamente aquilo que procurámos, no entanto, a mera apresentação desse suposto fim, não nos permite contactar com o contexto em que se encontra.

Aquilo que assistimos é a uma generalização no acesso à informação, quer por quase 70% ca população ter acesso à internet, pela maior formação ou mesmo pelo aumento da informação que até agora problematizei. À partida, isto é algo positivo: nós refletimos com base em informação, pelo que quanto mais informadas, melhor. Só que a enormidade da quantidade de informação que existe imobiliza-nos: pelo facto de termos de filtrar imenso, de procurar imenso, e, por outro lado, pelo acesso aparentemente fácil, na medida em que com um clique é possível ter acesso ao maior dos livros, numa ilusão de conhecimento (facilmente confundimos a busca de um material com o seu estudo). Basta pensarmos na quantidade de coisas que transferimos para ler ou ver «depois» e acaba por nunca ser aberto – mas nós sentimo-nos, contudo, (falsamente) familiarizados com essas mesmas coisas.

Mais uma vez aqui posso evocar a honestidade intelectual sobre a qual muito tenho insistido, vindo a par do espírito crítico. Certamente duas atitudes essenciais para lidar com esta questão. Mas aquilo que me parece é que estamos perante algo maior do que a ação pessoal: são as instituições, no seu termo mais lato, que se terão de adaptar a este tsunami de informação.

[1] https://ourworldindata.org/books

[2] https://www.researchgate.net/figure/The-number-of-papers-over-time-Thetotal-number-of-papers-has-surged-exponentially-over_fig1_333487946

[3] https://www.statista.com/statistics/871513/worldwide-data-created/

[4] https://www.dgeec.medu.pt/art/ensino-superior/estatisticas/diplomados/652fbe07bd5c2b00958292c9