…”…a arquitectura contemporânea não pode ser a arquitectura dos objectos isolados desligados da problemática mais geral de um pensamento crítico sobre o território; terá de ser «essencialmente o desenho da cidade e não a sua decoração como sucessão, até hedionda, de artefactos esdrúxulos».”…
Paulo Mendes da Rocha, arquitecto in”Ao volante pela cidade: Paulo Mendes da Rocha” de Manuel Graça Dias - colecção arquitectura – Relógio d’ Água.
Da sucessão de artefactos esdrúxulos de que Paulo Mendes da Rocha nos fala e com que polvilhámos cidades, vilas e até campos, constam também os duplamente esdrúxulos “Elefantes Brancos”, extravagantes e vazios.
“Elefante Branco” é a expressão idiomática referida aos elefantes brancos, por serem albinos, que no sudoeste asiático eram considerados sagrados e as leis protegiam do trabalho, razão pela qual a sua posse constituía uma maldição, que impunha a sua manutenção sem qualquer uso prático, e que se passou a aplicar à obra pública desprovida de qualquer utilidade.
E se no sudoeste asiático era a natureza que brindava alguns com tamanha maldição, reflectida na manutenção daqueles paquidermes sagrados, já no ocidente, mais precisamente aqui na Região, a mais ocidental da Europa, desde os anos 70 que somos brindados com manada suficiente em número e género desses animais, encomendados por diversos Governos, Câmaras Municipais e até particulares (com dinheiros públicos, pois claro!) que como são em betão armado consumiram largos fardos de escudos e euros à nascença, e por aí se mantêm para nossa adoração, a pastar pelas nossas ilhas.
Se a encomenda dos autênticos se deve às leis da Natureza, não havendo por isso nada a fazer, não sabendo eu mesmo se algumas preces a um qualquer Deus alterariam os desejos da Mãe Natureza, já nos nossos estou certo de que nada se fez nem fará para alterar o que quer que seja à sua nascença, nem tão pouco na sua eutanásia, tanto mais que demolições, tal como os talibans, só fizemos em Património, ou na Ria Formosa em que as casas eram de gente pobre, ou em Tróia em que o Belmiro de Azevedo o fez para manter a especulação imobiliária.
Ah! É verdade! E o Rui Rio também o fez no Bairro do Aleixo!
Se há quarenta anos as preocupações iam no sentido de dotar o arquipélago das infra-estruturas básicas de que não dispunha, num quadro de ausência de dinheiros públicos que impunha restrições nos seus gastos, e ainda num ambiente de certo pudor, já com a disponibilidade dos diversos quadros comunitários de apoio, e supridas tantas delas, veio o despudor e passou-se a equacionar descaradamente a construção civil de obra pública, como um meio fácil e disponível para a obtenção de almejados proventos, aliás negócio que os particulares já há muito tinham descoberto, como o nosso mais antigo Elefante Branco, o Hotel Monte Palace demonstra.
Mas é realmente a partir dos anos 90 que a avaliação integral dos factores preponderantes para o empreendimento, conducentes a um programa adequado ao local, à sua componente social e económica que se reflectia na sua sustentabilidade, perante valores de negócio garantidos na sua construção, se deixa de fazer.
Elimina-se o pensamento critico sobre o território de que Paulo Mendes da Rocha nos fala, ignoram-se também os pareceres desfavoráveis, fazem-se os estudos económicos por medida, ou encomenda-se a obra a arquitectos de “renome”, acima de qualquer suspeita, que os serviços não questionam, ou até já nem isso; e faça-se na mesma que vai dar em obra os requeridos proventos.
Curiosamente na fúria das ideias, que não sobre o território, os primeiros são hotéis, ao Monte Palace, salvo erro, segue-se a Cituflor, aparthotel em Santa Cruz das Flores, destacado da vila, isolado e sobranceiro a esta, que nunca tendo funcionado, mais tarde um Secretário Regional prometia, como alojamento aos professores destacados nas Flores, cerimónia a que tive o privilégio de assistir, e que se ficou por isso mesmo, porque o que sobrava de lata ao Secretário, faltava em infra-estruturas para que funcionasse; e assim ficou.
Sensivelmente da mesma época e também aparthotel, é o Hotel Pico, na Madalena do Pico, também isolado e que à semelhança do Monte Palace também funcionou por mais algum tempo, onde o conceito de aparthotel era uma descoberta peregrina, que requeria mais espaço e mais equipamento que um qualquer hotel, quando o Restaurante do Senhor Garcia era naquele tempo, possivelmente o melhor da Região, e por isso nunca ninguém, naqueles enormes quartos com cozinha, que o conceito requeria, lá terá sequer fritado um ovo, e também fechou e mais tarde em ambiente de uma qualquer campanha lançou-se a “primeira pedra” da sua demolição, que não veio a acontecer; e assim ficou.
Também da mesma época é o Parque e Escritórios da Zona Franca de Santa Maria, que nunca foi ocupado, mas que possivelmente terá sido objecto de inauguração; e assim ficou.
Mais recentes e à dimensão das suas ilhas, a Fábrica de Manteiga da extinta Cooperativa Agrícola Corvense, que por isso fechou e até já deu abrigo a turistas, ou a Padaria na entrada de Santa Cruz das Flores, ou o Restaurante e Discoteca nas Velas em São Jorge, que tinha um lago no seu interior, e que teve inauguração com pompa e circunstância pelo Governo, mas que fecharam; e assim ficaram.
Procurou-se sempre, mas só com os Elefantes Brancos a almejada Coesão.
A “Custos Controlados” nasceram, que me lembre, os conjuntos habitacionais das Sete Cidades, dos Arrifes, e da Ribeira Grande pelo menos, todos em São Miguel, para onde mais uma vez não se fez a prospecção da população interessada nas condições de acesso, nem se avaliou a capacidade dos construtores para os volumes de obra em presença, factores determinantes para o sucesso de cada uma das operações; e assim ficaram.
Mais discreto porque sendo o aproveitamento da cisterna do Jardim António Borges em Ponta Delgada, se mantém escondido, mas pouco discreto no conceito e na sua materialização, não serve para nada, e lá está triste e deprimido, longe das vistas dos passantes; e assim ficou.
Mais expostas são as “Capelas Imperfeitas” da Ponta Garça, capelas mortuárias inacabadas, uma em cima, a outra em baixo, a pontuarem do lado direito o acesso ao cemitério; e assim ficaram.
Cumprindo com o que Paulo Mendes da Rocha refere, são todos objectos isolados quer no território em si, quer da problemática de um pensamento crítico sobre o território que se lhes tivesse assistido teria determinado a interrupção da gestação das ideias perniciosas, que essas sim lhes assistiram.
E a manada fundada na ausência do pensamento que anteriormente referi, parece não ter fim, e parece ter gala em se mostrar, ao desfilar em locais bem expostos, deixando a pegada de que se fala bem marcada, mas que não se corrige, antes se acrescenta, e são as Piscinas Cobertas da Povoação e do Nordeste, o Aquaparque da Vila Franca, a Estalagem dos Clérigos no Nordeste, o Lar de Idosos da Rotunda de Belém, os Apoios de Bar e Sanitários aos banhos de mar na Ferraria, e como exemplar raro de colecção o conglomerado de caixas da Calheta de Pêro de Teive.
Seguros do interesse deste conjunto insustentável de edifícios, procuramos sempre o seu reforço acrescentando-lhe mais peças, e agora engendra-se o Azores Aquarim, que será o primeiro dentro de água e o Teleférico que será o primeiro no ar.
A manada não serve ninguém, o território teria agradecido que não se tivessem construído, e o erário público também; ora assim sendo, a quem interessaram? E os próximos a quem interessarão?