…”Lembro-me de um caso curioso. Foi há já muitos anos. Tive um convite para me deslocar a Ponta Delgada, a fim de dar o meu parecer, sobre a construção de um hotel, junto à Lagoa das Sete Cidades. No local verifiquei que as condições não eram aconselháveis para a sua localização. Segundo parece, o hotel acabou por ser construído, mas nunca entrou em funcionamento!
Afinal, acabaram por não aceitar a minha sugestão.”…
Siza Vieira, arquitecto, in entrevista ao Açoriano Oriental de Jorge Tavares.
Siza confundiu-se, tal o curto espaço de tempo em que o hotel funcionou, mas pouco importa.
O parecer que deu foi menor face ao negócio que o empreendedor perspectivava, em desrespeito pelo local.
O final dos anos 80, inicio dos anos 90 do século passado, marca a viragem naquilo que até então era tido como importante, a avaliação integral dos factores preponderantes para o empreendimento, conducentes a um programa adequado ao local, à sua componente social e económica, garantidoras da sua sustentabilidade.
Mas a partir daí, as garantias de financiamento, quaisquer que sejam, passaram a sobrepor-se aos demais elementos relevantes da sustentabilidade, a que também não é alheio o arredar de técnicos de carreira dos lugares de decisão dos diversos serviços em abono de meninos recém-formados, sem experiência, presos pela respectiva teia partidária.
O promotor público ou privado, deslumbrado com a sua (nova) posição, de fácil acesso aos financiamentos, que não com o seu saber e experiência, por deles tantas vezes ainda falho, no seu irrealismo económico, com raras e honrosas excepções, determinou-se rico no pedir e muito pobre no dar, onde até a legislação por desmedida o protege.
E o que até então era importante, a cultura do promotor traduzida na qualidade do programa, tantas vezes inovador, a sua sustentabilidade, a qualidade do projecto e da construção assentes numa estreita relação técnico profissional e de confiança deixou de o ser.
Passou para primeiro plano a garantia de um qualquer financiamento, alicerçado em estudos económicos manipulados à medida, de uma qualquer ideia sugerida de outras vivências, ou copiada de outros territórios, objectivada por lucros imediatos, incapaz de por si só estruturar um programa sustentável, e em que a velocidade da sua elaboração, deixa cair aspectos determinantes das suas diferentes componentes; ou propositadamente por comprometedores, são esquecidos.
Munido de um programa manco, para o promotor importa eleger um projectista capaz de branquear a operação impondo um grito de forte eco no silêncio do sítio, ou que pelo nome conceituado garanta o reconhecimento, a diluição de suspeição da operação, em ambos os casos contrariando a boa Arquitectura.
Por fim, a construção sob concurso regido por legislação que cada vez mais vem sendo determinada por hipotéticas economias, mas onde só se dá conta do crescente esbanjamento de dinheiros, conduzirá ainda a uma execução acelerada, reflectida numa má construção prenhe de defeitos, que sem controlo facilmente são imputados a terceiros.
A política de Planeamento Urbano tal como vem sendo tratada, é constantemente um obstáculo aos arquitectos, à boa Arquitectura.
Haverá excepções evidentemente, mas que infelizmente só confirmam a regra.
Vinte e cinco anos depois do fugaz Monte Palace, ao anunciar-se a sua “conversão” em hotel de montanha (como será? o que será?), permanecendo a visão economicista e a inadequação ao local, que o matou à primeira, e quando por razões de mercado hotéis da cidade estão fechados, resta-nos mudar de atitude, de política, porque seja qual for o conceito a situação não se alterará, permanecendo tudo na mesma, mas com mais dinheiro gasto.
Naquele tempo ainda se solicitou parecer, mas agora, por tantas vezes perturbador ao demonstrar as fragilidades do programa, deixou-se de o fazer; e então, ou se orquestram planos à medida, ou pura e simplesmente por impeditivos, superiormente se ignoram.
Na Calheta de Pêro Teive, estamos no primeiro caso, em que em dois momentos se costurou o fato à rigorosa medida em prol do negócio, eliminando-se assim à partida quaisquer pareceres negativos (sempre tão deselegantes!), garantindo a sua perfeita legalização, mas onde a conjuntura remando contra a maré, obstou à sua pronta conclusão e pôs a nu a inadequação da operação ao local, gerando movimentos populares de contestação.
A passada campanha para as eleições autárquicas permitiu que alguns dos candidatos apresentassem as suas abordagens, à necessária alteração de correcção da operação em curso.
No fundo, contrariando a política vigente, impeditiva de adequado Planeamento e boa Arquitectura, propunham cada um a seu modo, uma profunda alteração que tarda, e que sem a qual continuaremos entretidos a mastigar argumentos cediços que nos vão dando como paliativo na defesa frouxa de interesses particulares, esbanjadores de dinheiros públicos em prejuízo da Cidade.
Também neste caso, por muito que custe aos promotores do que para ali está, resta-lhes configurando coragem assumir o erro, mudar de atitude, e de política.
Em Angra, na Biblioteca Pública e Arquivo estamos no segundo caso de tratamento da legislação, ou melhor, do seu atropelo, ao não ser considerada nos requisitos programáticos.
A inadequada localização da Biblioteca Pública e Arquivo, determinada pelo programa coxo, falho de componentes essenciais, em plena área classificada pela Unesco, remete-nos mais uma vez à fragilidade das decisões políticas em questão de Planeamento Urbano e Arquitectura.
E tal como na Calheta de Pêro Teive a paragem da construção, devida à crise, remeteu-nos à apreciação de uma “maquete” em tamanho natural, que permitiu mais facilmente demonstrar a inadequação processada, onde até a legislação foi esquecida.
Em ambos os casos, os resultados são semelhantes no maltratar a Cidade, e vamos acumulando “maquetes” em tamanho natural, não se tendo aprendido nada com os erros do passado que se teimam em não assumir.
E vão pelo menos três dos grandes! Porque dos pequeninos vão já muitos mais, entre concluídos e por concluir, salpicam quase todo o arquipélago e eles são multiusos, piscinas, espaços comerciais, termas, capelas, habitações, loteamentos…eu sei lá!
Em Arquitectura o Programa e o seu cumprimento são determinantes e por isso a sua elaboração multidisciplinar e avaliação, peças fundamentais de adequadas políticas de Planeamento, exigentes por isso nos seus tempos de elaboração e maturação.
E os erros assumem-se! E com determinação corrigem-se; numa mudança de atitude, e com uma política diferente da que temos, capaz de criar exigência e responsabilidade em todos os intervenientes no processo, porque a Arquitectura precisa disso!