“A casa Manoel de Oliveira é um projecto falhado”
Eduardo Souto Moura, arquitecto in entrevista de Valdemar Cruz, Jornal Expresso de 25 de Abril de 2014.
Eduardo Souto Moura nesta entrevista assume a falha deste projecto, que em meu entender não se lhe pode imputar, mas sim ao actual sistema de encomenda, à falta de cultura dos promotores, conforme aqui já referi algumas vezes.
Em 1998, o então presidente da Câmara Municipal do Porto encomendou o projecto no qual o cineasta nunca se reviu, e por isso o edifício apesar de concluído nunca recebeu o cineasta e o seu espólio e por isso nunca abriu.
E em resultado do pragmatismo do actual presidente está agora à venda, abaixo do preço de custo.
Haja quem o queira…
Um dos requisitos da criação arquitectónica é a satisfação das necessidades do homem; o cumprimento de adequado programa, o que neste caso foi desprezado nas suas componentes funcional e económica, ainda que responda e bem a outros requisitos que a Arquitectura deve abraçar.
A negligência na elaboração dos programas, tarefa da responsabilidade do promotor, vulgo dono da obra, conduz forçosamente a trabalhos a mais em obra para o devido aprofundamento e adequação do programa, ou em casos extremos à falência do projecto como neste caso, ou como em alguns nossos conhecidos que apesar da derrapagem não foram ou não estão concluídos, ou se concluídos não abriram, e para ali estão contaminando descaradamente o meio onde se inserem.
Um nome grande da Arquitectura, até mesmo um Pritzker, como se vê, não resgata o erro da encomenda e o respectivo processo subjacente.
O promotor não pode demitir-se do processo e apenas visualizar o objectivo, deixando à deriva o arquitecto e os futuros utilizadores, porque o nome grande enfatiza a bem estruturada encomenda, mas quando a sua eleição é devida apenas ao deslumbramento ou a qualquer branqueamento sob os auspícios de políticas menores os resultados estão à vista.
A Arquitectura tem isto da necessidade de perfeita adequação ao que lá se quer e como se quer desenvolver no seu devido tempo, porque a prazo o tempo também pesa e influi; onde o passar do tempo com o que consigo arrasta de novas exigências, costumes e até oportunidades, tantas vezes a desadequa, remetendo-a então à reabilitação que só através de programas e encomendas de sucesso a adequará convenientemente aos novos tempos.
A desadequação instantânea, originada pela má encomenda, de que é um exemplo, aquele que aqui trouxe, mostra-o em tempo muito curto, confronta-nos de imediato não exigindo por isso reabilitação, mas sugerindo a demolição, para a qual com tantos e bons exemplos a pedi-la, nos falta, coragem para o fazer.
Esta desadequação que o tempo traz não aponta o dedo a ninguém e vai-nos mais calmamente alertando para a necessidade de reabilitação e por isso estamos mais predispostos a apresentá-la e a propô-la.
A Calheta de Pêro de Teive, confronta o tecido existente e a sua memória, exige demolição para correcção do desatino, mas não se fala, ou fala-se baixinho, baralha-se a opinião, empurra-se com a barriga e oxalá caísse no esquecimento…É uma chatice estar ali tão à mostra, porque senão ficaria tranquilamente como o Monte Palace, ou ainda melhor seria, se estivesse enterrada como a Sala de Exposições na cisterna do jardim António Borges, que fora da vista não mostra a saca de dinheiro que lá ficou depositada, sem retorno de qualquer espécie.
A Avenida do Mar e as Portas do Mar, dois casos de sucesso que lhes trouxeram a adesão popular nos seus tempos livres, colocaram na sombra, deslustraram o troço da Avenida Marginal que as interliga, entre a Moaçor e o Clube Naval.
Consciente disso, a Câmara Municipal de Ponta Delgada na sequência dos projectos da Avenida do Mar encomendou anteprojecto de reabilitação daquele troço, que mantendo a via automóvel tal como ela é, reconduzia em condições idênticas às da Avenida do Mar, peões, ciclistas e iluminação com recurso ao actual passeio e a passadiço em balanço sobre o mar.
O projecto ficou na gaveta.
A mesma ideia, cerca de meia dúzia de anos mais tarde, pressupostamente com foros de originalidade, é agora retomada noutros contornos, (e vão duas!) mostrando-nos bem como é mais fácil a tomada de posição sobre trechos que o tempo ensombrou, e que requerem pequena cosmética, que a assunção de medidas estruturantes para a Cidade, de que ela bem precisa.
É evidente, e parece haver acordo de que a reabilitação daquele troço é importante, porque senão a Câmara também não teria encomendado há meia dúzia de anos aquele anteprojecto, que daria indiscutivelmente outro brilho à avenida, que afinal está (definitivamente?) ultrajada pela presença do desatino perpetrado na Calheta de Pêro de Teive, para onde aí sim, se exige outra abordagem urbana, que não aquela em vigor.
A diferença entre a proposição de medidas avulsas, muito mais ao nosso estilo por melhores no improviso, no desenrascanço, menores na exigência de meios e até no pensar, ou de medidas estruturantes exigentes em tempo, meios e pensar, é realmente esta.
Por isso continuamos a tratar a Cidade, tal como tantas outras coisas sem pensar, com atitudes imediatistas, contrárias ao planeamento urbano, ou com pequenas cosméticas, sem lhe atribuir tempo e meios para a objectivação de medidas estruturantes, de que ela tanto precisa e que a ausência de obras, determinada pela crise, recomendaria como forma de pensar o futuro.
Em Santa Clara, depois de tanta conversa, perdeu-se já a oportunidade do Entreposto Frigorífico deixar de ser mais uma obra sem enquadramento urbano ao desenvolver-se no lote que lhe foi atribuído sem que se tenha perspectivado a sua adequada articulação com a envolvente que equacionaria um estudo bem mais vasto que deveria abranger toda aquela faixa que vai das oficinas da JH Ornelas, a poente, à sede da Lotaçor, a nascente., aliás como o Plano Director Municipal contempla, mas que pouco importa como se vê.
Simultaneamente as novas condutas de combustível ao implantarem-se “livremente” naquele território, sem planeamento urbano prévio, condicionaram já qualquer futuro plano de ordenamento que eventualmente um dia possa vir a ser considerado…
Na Calheta de Pêro Teive conscientes do que o imediatismo proporciona, e no terror de ferir susceptibilidades, que a assunção dos erros acarretaria, manter-se-á o actual estado de coisas, ao invés de planear aquele território de uma forma abrangente que reconduziria a antiga Fundição da Calheta e o vazio urbano adjacente, em articulação com o prolongamento da Avenida D. João III até à Marginal, o Hotel Casino e o Centro Comercial.
Na zona histórica, o Campo de S. Francisco objecto de pequena cosmética resultante de um “peeling” de pavimentos constitui novo reflexo do desperdício de oportunidades…
Que não se faça nada no Largo do Colégio! Mantenhamos o parque de estacionamento, porque pelo menos os carros sempre protegem aquele espaço de qualquer novo desatino!