Arquitectura XXX

…”Todos os bens da Igreja, na sua materialidade, remetem para a beleza e transcendência, inscrevendo a novidade do Evangelho, a todas as gerações, peregrinas no tempo. É neste espírito que a preservação do Património configura uma permanente urgência.”…

Comissão Diocesana dos Bens Culturais da Igreja, in “Procedimento a adoptar em caso de intervenção sobre Bens Culturais da Igreja”.

Pesem todas as recomendações sobre a salvaguarda do Património os tempos que correm pela associação da ignorância corrente ao economicismo vigente, ditam parâmetros mais fortes comprometedores da continuidade desejável ao Património, à preservação da nossa identidade, onde tanto o Imóvel como o Móvel sofrem a sua destruição progressiva como se fora essa uma razão de transformação necessária na via do progresso.

E este estado de coisas é geral, que a globalização também chamou a si alastrando, onde os exemplos emergem por todos os lados. 

Notícias recentes deram-nos a conhecer o fresco do século XIX da Igreja do Santuário da Misericórdia de Borja em Espanha, ou melhor o “Restauro” de que foi objecto de autoria de uma paroquiana octogenária, portanto com idade para ter juízo, mas em que a sua ignorância em abono da sua fé e quaisquer economias ditou a sua destruição, remetendo o Ecce Homo que foi, à caricatura de um qualquer Anjo Papudo.

Em Oliveira do Hospital, no Santuário de Nossa Senhora das Preces o “Restauro” das 13 imagens que recriam a última ceia, perpetrado por suposto restaurador, pela sua incapacidade técnica teve desfecho idêntico, pela descaracterização de que as imagens foram alvo num total desrespeito pela história.

Nas Furnas o “Restauro” de que a imagem de Santa Ana foi objecto, também fruto da ignorância de quem o encomendou e da incapacidade técnica de quem o executou, apagou a sua identidade, a sua história, reconduzindo-a a uma falsa contemporaneidade, tão comum às intervenções da cirurgia estética a que velhas endinheiradas se submetem.

Noutro quadro, desta feita da reabilitação urbana, o apear do seu pedestal, a já de si pouco interessante, estátua de Madre Teresa da Anunciada, existente no Campo de S. Francisco, retirou-lhe a pouca dignidade que continha remetendo-a à escala do “Gigantone” característico das festas nortenhas do continente. 

A Diocese de Angra e Ilhas dos Açores ao estabelecer e bem, um conjunto de regras que supra-entendem à preservação e conservação dos seus bens culturais, procurava obstar a estes casos, acrescentando um conjunto de regras a satisfazer e uma comissão técnica de orientação e acompanhamento garantidora dos objectivos preconizados, mas que os casos marginais, por se esquivarem e não se lhes submeterem, subvertem invocando para o efeito, comparticipações e responsabilidades próprias em abono desta delapidação.

Alguns esquecem, ou não querem sequer entender, que este fabuloso Património que a Igreja detém, e que responsavelmente procura preservar, é um bem público, que deve ser divulgado e fruído, e por isso a exposição “Esplendor e Glória”, na qual por melhor decisão do Senhor Bispo de Angra estará presente o Resplendor do Senhor Santo Cristo, deu o alarido que deu.

O Património Imóvel pesem os Inventários que se têm produzido, os apoios da Administração Regional, os Estudos que sobre ele se têm feito, os Programas Televisivos que o vêm divulgando, as Teses de que tem sido objecto, as regras inerentes à Reabilitação e ao Restauro, ou até mesmo as Classificações de que tem sido alvo, continua pelas mesmas razões que apontei para o Património Móvel, a ser diariamente delapidado.

Desta feita, surge a notícia da intenção de substituir, em abono de quaisquer modernices e economias, as portas de madeira da Igreja de S. Sebastião nos Ginetes, por portas de PVC.

Nem aqui a Carta dos Materiais Endógenos nos salva, porque tal como nas Empreitadas Públicas, a agressividade comercial de certos produtos e empresas, que arremete contra a ignorância os fundamentos economicistas é muito mais forte, e só a aplicação das regras do “Procedimento a adoptar em caso de intervenção sobre Bens Culturais da Igreja” imporá o bom senso, as regras mínimas de actuação perante a urgente salvaguarda do Património.

É esta mesma agressividade que doura a torto e a direito imagens e capelas, ou reveste a cerâmicas as fachadas tradicionais, ou instala sistemas de gravação e difusão sonora que repercutem amiudadamente a dobra dos sinos em qualquer torre sineira, numa descaracterização constante, redutora da identidade.

A arte parece ter deixado o nosso dia-a-dia e com ela a poética e a beleza; passámos para o reino dos números. Foi tempo que a legislação relativa à construção de obra pública, impunha a afectação, salvo erro na ordem dos 10% da empreitada, para a introdução de obras de arte, e ainda hoje esses edifícios respiram outro ar, e tiveram o privilégio da contaminação de muitos outros edifícios e estabelecimentos particulares, dos quais o mais emblemático pela sua enorme dimensão física e temporal, é provavelmente o Metropolitano de Lisboa que soube até hoje manter essa política e transformar o corredor escuro noutro registo, que pela introdução da arte e de outra poética, nos acolhe e permite outro estado de espírito, promovendo novos horizontes. 

Também aqui e agora, contrariando aqueles casos que ostracizam e mal tratam o Património, numa lufada de ar fresco, na Sé de Angra e na Igreja de S. José em Ponta Delgada, com carácter de permanência diferente, a nova Via-Sacra e o programa Indigências respectivamente, surgem como outros registos, que com recurso à arte contemporânea procuram partilhar novas vivências com a liturgia e o culto no espaço da Igreja, numa linguagem poética do nosso tempo, abordando temáticas de hoje de cariz social, que estes novos tempos promoveram como emergência, e por isso configuram também da Igreja, um estado permanente de urgência.

O respeito pela História e consequentemente pelo Património, que confere a sua preservação e da nossa identidade, e o nosso envolvimento com a arte, ainda que hoje esteja fora da ordem do dia, perspectivam melhores horizontes, futuros menos sombrios, como estas duas intervenções da Igreja exemplarmente assinalam.

No passado recente a igreja das Angústias na Horta, pela mão do então seu pároco, padre Júlio da Rosa, foi também palco em prol da arte, mas cujo exemplo singular do seu tempo, infelizmente não contagiou outros lugares.

Restringidos a casos exemplares mas singulares, sem uma política abrangente, que se ensina e uma prática que se divulga e exerce, não nos podemos admirar do que vamos perpetrando em termos de Património com as inevitáveis consequências.