...”As lagoas das Furnas e das Sete Cidades serão porventura ainda mais belas do que a do Fogo. Trabalharam-nas as conjuntas mãos dos deuses e dos homens. Os deuses as fizeram, os homens as modificaram.”...
João de Melo, in “Açores o Segredo das Ilhas”, Publicações D. Quixote.
Alberto Campo Baeza, arquitecto, no seu livro “Pensar com as Mãos” diz-nos que ...” o labor criador de um arquitecto necessita tanto da cabeça como das mãos.”... ou como nos dizia Saramago que os criadores têm como que pequenos cérebros na ponta dos dedos.
Pois para mim, enquanto foram os deuses os arquitectos criadores das lagoas, esteve tudo certo porque usaram a cabeça e as mãos, como ainda hoje se lhes consegue reconhecer a autoria, que ainda lá se nota.
Mas quando os homens as modificaram, foram a pouco e pouco na ânsia de fazer muito e depressa, perdendo a cabeça e usando mal as mãos.
O trabalho dos deuses, os traçados que deixaram, obrigou os homens a modificações diferenciadas numa e noutra lagoa, e por isso também temos agora para lhes emendar a mão, dois Planos um para cada uma das bacias hidrográficas.
Essa vontade de emendar a mão por via legislativa, que o trabalho continuado das mãos na ausência da cabeça impôs, deparou-se também ela com esses traçados diferentes, e sobretudo com vontades e interesses diferentes, que diferenciam bem uma da outra.
Se nas Furnas os deuses plantaram calores e fumarolas junto à lagoa, possivelmente para a protegerem do casario, intenção que com as paredes inclinadas das margens reforçaram, não imaginaram no entanto que nessas paredes os homens as modificariam no mau sentido nelas dispondo culturas de tal modo nocivas que apodreceriam por escorrência, as águas da lagoa.
Nas Sete Cidades os deuses esqueceram-se de deixar calores em volta da lagoa e por isso substituíram-nos pelos seus humores, que no inverno fazem subir a água que tudo alaga em volta, e no verão destapam árvores e campos; mas mesmo assim o casario chegou-se-lhe.
Inicialmente, sem qualquer Plano, afastado, contido e disciplinado, por respeitador da natureza, situação que o frenesim das mãos sem cabeça não deixou durar muito, para com Plano lhe adoçar um comboio anfíbio sobre estacas que desafia o humor da lagoa, e inviabiliza o contacto franco de outrora sem quaisquer contrapartidas.
Salve-se o contemporâneo casario, que inicialmente manuseado para junto da margem, no atropelo do desgovernado processo, subiu a encosta e ali ficou, triste cinzento e sem jeito nem moradores, porque não fazia falta.
E as culturas nocivas e os seus nutrientes também vieram para ficar e adoentar a lagoa, a que se contrapuseram drenagens artificiais de reencaminhamento daquelas águas sujas para outros sítios onde perduram, cheiram e contaminam, como se varresse-mos o lixo para debaixo do tapete.
Promulgado há doze anos o Plano da Bacia Hidrográfica da Bacia da Lagoa das Sete Cidades, estranhamente ao contrário do seu contemporâneo das Furnas não requereu qualquer expropriação como garante da alteração de uso do solo, facto que se adivinha por razões que não ambientais, mas de propriedade em jogo, reflectindo fracas vontades para valores de peso.
Pretendendo-se agora continuar a “condicionar” as mãos que tudo modificam e destroem, invocando melhorias do estado da qualidade da água e a manutenção dos objectivos, altera-se o Plano, desta feita alargando-lhe a malha que se tornou mais permissiva em “resposta à dinâmica económica e social”, que tal como nas Furnas, ou noutra lagoa qualquer não será a mesma dinâmica da natureza e do ambiente, porque nesta se reveem os deuses e na outra os homens.
Garantidamente manter-se-há a agropecuária de encabeçamento exagerado e a respectiva contaminação dos solos e águas, e tudo o mais também se poderá manter, reforçando-se o casario desde que afecto a turismo de habitação ou turismo em espaço rural, o que imporá a disseminação das construções, das infraestruturas e dos respectivos resíduos, dos acessos, dos carros e dos estacionamentos, e nada inviabiliza as moto quatro e os «bigtrucks» que nas cumeeiras desrespeitam a natureza, o ambiente e a segurança dos indefesos caminhantes.
Paralelamente, outras mãos com outra dinâmica económica, assaltam os bolsos vazios da maioria da população residente, e atacam descaradamente a já muito frágil dinâmica social aí existente.
E os deuses que fizeram o seu trabalho, agora limpam daí as suas mãos...e então, sem coragem, às mãos dos que pela sua ganância, à força tudo modificam, ficaremos entregues à sorte, ou aos bichos, como soi dizer-se...e então já será tarde para emendar a mão e fazer diferente, e assim continuaremos sem estratégia decente para o território.