Não, caro leitor, não enlouqueci. Até os mudos têm voz, até os mudos têm uma presença democrática. As eleições podem ter acontecido há duas semanas, mas a democracia não parou. Não é só em atos eleitorais que todos nos fazemos ouvir, é em todos os dias do ano. É por isso que nos podemos orgulhar de afirmar que ainda vivemos num estado democrático.
Nada satisfaz mais os interesses instalados do que a ilusão de que nós, cidadãos comuns, não temos qualquer poder além do voto (e nesse caso, nada os satisfaz mais do que a abstenção). História e Filosofia são importantes, uma no básico ou no secundário, para demonstrar as ferramentas que temos, se bem que de forma indireta. Em Cidadania existe o domínio das «Instituições e Participação Democrática», mas será que é devidamente lecionado? Por agora temos voz, mas se ninguém nos disser que temos os instrumentos, num futuro o que hoje chamamos de democracia pode desabar.
Como podemos acusar os jovens de desinteresse se nem lhes é sequer ensinado como votar? Que legitimidade há? Os poderes instalados agradecem.
Quais são, então, essas ferramentas? Existem algumas óbvias (como o voto ou a própria participação em órgãos de soberania), mas mesmo no nosso quotidiano temos acesso a toda uma gama de instrumentos que acabamos por não usar na sua plenitude. A Internet é, provavelmente, o maior exemplo. Através da presença online é possível contactar com entidades, instituições, órgão, etc competentes nas mais variadas áreas para propor sugestões, deixar críticas e questionar. É possível criar e subscrever petições. É possível aceder a um conjunto de informação enciclopédica, onde se inclui a organização das entidades e as suas regras. Com persistência na pesquisa e filtros de rigor, é possível encontrar resposta para quase qualquer questão.
O associativismo e o voluntariado são outros instrumentos poderosos. Só por si são-no porque sendo pilares da comunidade precisam de atenção (e a participação tornam-nos mais visíveis). Por outro lado, qualquer que seja a área ou causa, tem sempre uma competência política associada. São formas, portante, de pressionar e alertar os agentes políticos para esses temas. Os próprios sindicatos são, claro, outro exemplo, com uma índole claramente reivindicativa.
Atitudes como manifestações e greves são outra forma evidente de ter uma ação democrática. São o expoente da ideia de que sem visibilidade os problemas não são resolvidos.
É necessário ter em atenção que os órgãos políticos permitem público e, alguns até, participação. As assembleias municipais e de freguesia, por exemplo, têm um período de auscultação ao público previsto no período antes da ordem do dia. Algumas reuniões da Câmara Municipal podem ter esse espaço. Mais uma vez: o contacte de entidades executivas pode ser importante: seja a Junta, a Câmara, uma Direção, uma Secretaria, um Ministério,…
Tudo o que fazemos é política, temos de parar de achar que se trata de algo alheio, algo sujo. Se recusarmos o nosso poder é que se torna sujo, porque fica nas mãos de uns poucos, que guerreiam por interesses próprios.
Por um lado temos de assumir a nossa postura de cidadãos e por outro temos de deixar cair os preconceitos sobre os candidatos e titulares de cargos públicos: nós podemos ser um deles.