Autonomizar

Autonomia é uma palavra que nos diz muito. A ela associamos o Estatuto Político-Administrativo da nossa Região. Mesmo quem não pense diretamente nele (perguntemo-nos sobre a nossa educação sobre as nossas instituições – tome-se este conceito na sua latitude), é esse o seu suporte: a possibilidade de os Açores se autogovernarem segundo certas balizas.

Autonomia vem da junção grega de «auto» e «nomos»: «auto» como «de si mesmo» e «nomos» como «lei» (na verdade «nomos» é um pouco mais denso). Um olhar etimológico permite-nos concluir que autonomia é estabelecermos a nossa própria lei. Mais do que um facto jurídico de uma geografia, a noção de autonomia está relacionada com o indivíduo em primeiro lugar.

No âmbito filosófico, Immanuel Kant é o nome que se me ocorre com maior intensidade e premência para se abordar esta questão. Para o pensador de Königsberg, a autonomia da vontade constitui o princípio supremo da moralidade; agir autonomamente significa agir segundo uma lei que impomos a nós próprios, inteiramente independentemente dos nossos desejos contingentes, das inclinações imediatas ou de pressões externas do sistema. Para Kant, a autonomia é dignidade. E aquilo que tem dignidade está ontologicamente acima de qualquer preço, não admitindo qualquer equivalente ou mercantilização.

Qual a nossa autonomia hoje?

Olhemos em redor com atenção e enfrentemos os novos desafios do mundo digital. Confrontamo-nos diariamente com a falácia do consentimento informado nas redes, com o vício algorítmico desenhado para sequestrar a nossa atenção e com uma crescente plataformização da atividade económica que, longe de democratizar as oportunidades, agudiza as desigualdades socioeconómicas e aliena o trabalhador contemporâneo. São mais problemas que se somam aos velhos. 

Assistimos, impotentes, a uma dissociação profunda, a uma existência progressivamente convertida num fluxo frenético e virtual que corre por nós, restando-nos muitas vezes o papel de meros espetadores passivos do nosso próprio tempo e das nossas decisões. Sinto-o muitas vezes e não sou o único: a vida em piloto automático.

Neste cenário de exaustão e fadiga crónica, tentamos ganhar algum sentido existencial multiplicando desesperadamente a nossa ação. Trabalhos, projetos, compromissos,… Não rara a vez, tentamos ser os melhores.  Desengane-se quem acha que esta hiperatividade cega é sinónimo de liberdade ou de emancipação. Esse é, na verdade, um esforço inglório de diluição identitária. Caímos progressivamente na busca cega e obsessiva do utilitário pelo utilitário, transformando-nos em meros administradores de tarefas que asfixiam a quietude e o pensamento crítico necessário à nossa autorrealização (e necessário também à cidadania). Substituímos a autodeterminação existencial pela reação mecânica a estímulos externos, hipotecando a nossa agência.

Se nos deixarmos reduzir ao cumprimento formal de fluxos processuais e ao imperativo da produtividade constante, que espaço sobra para a verdadeira dignidade humana? Que autonomia nos resta se formos incapazes de parar o contrarrelógio e corpo e propor, coletiva e individualmente, as nossas próprias balizas?

Este é o momento bonito em que nos devemos aperceber que o mundo real somos nós e as nossas ações do quotidiano. Somos uma complexidade de autonomias e a política, na prática, é a sua gestão. Resta saber se a autonomia do outro está em competição com a nossa ou se uma só existe porque existe a outra. Haja humanidade.