Autossuficiência

Por vezes fico a pensar sobre autossuficiência. Somos autossuficientes? Não confundir com autossustentabilidade, mas anda lá perto. O que é ser autossuficiente hoje?

Julgo que a primeira resposta que nos vem quando indagamos sobre a nossa autossuficiência é uma categórica negação. Somos ilhas, temos recursos limitados, conseguimos lá manter-nos sozinhos! A verdade, não obstante, é que desde o século XV houve sucessivas gerações que viveram nestas terras entregues somente a si. Esses nossos antepassados não eram autossuficientes? Não é preciso puxar muito pela cronologia, os nossos avós, pelo menos no seu início de vida e nas freguesias mais periféricas são capazes de testemunhar realidade muito semelhante.

Certamente que essa autossuficiência em muito difere daquela que nos ocorre hoje. Produzir os nossos alimentos, ferramentas e pertences não nos basta quando sabemos das maravilhas que podemos ter para nos facilitar ou abrilhantar a vida. Se a partir de hoje não houvesse mais nenhum navio ou avião a passar pelo arquipélago, certamente que nos desenrascaríamos, afinal, beneficiamos da vantagem de já ter um conjunto de bens que seríamos incapazes de produzir e que nos podem ajudar, além de não faltar terra para cultivar. Não acharíamos piada nenhuma, mas sobreviveríamos.

Aquilo em que mais me ponho a pensar neste assunto é justamente na diferença, naquilo que hoje damos como imprescindível. Suspeito que isso dirá muito sobre nós, sobre as nossas especificidades no século XXI, a nossa forma de ver e estar no mundo. Afinal, somos igualmente seres humanos, temos exatamente as mesmas necessidades fisiológicas, quando comparados com os nossos ascendentes, o que mudou?

Arriscaria a dizer que nenhum das nossas necessidades mudou ou foi criada. O que mudou foi a tecnologia do nosso quotidiano. Somos como o lusitano Viriato, mas com carros e telemóveis. Gostamos da tecnologia, principalmente porque muitas vezes nos facilita a vida. Na verdade, parece que a estrela polar da inovação é essa mesma. Com a inovação, advém a complexidade e sofisticação das ferramentas, o que só se torna operacional num mundo globalizado, com partilhas de recursos, saberes e, na prática, muita exploração de mão-de-obra.

A nossa tendência para o facilitismo sempre esteve connosco, simplesmente se evidencia mais agora, porque o progresso tecnológico tem seguido uma lógica exponencial, sendo que a cada dia há cada vez mais novidades – uma verdadeira aceleração que nos impacta de mil e uma formas e que já aqui falámos. Claro que o desenvolvimento tecnológico não é inocente, dão-nos coisas para nos viciarmos, de modo a nos tornarmos nós próprios o produto, a mercadoria.

Não queria, contudo, desenvolver o meu raciocínio por estes terrenos, queria antes perguntar sobre a pertinência ou mesmo importância da autossuficiência. A principal vantagem de alguém que seja autossuficiência é a possibilidade de gerir os seus próprios recursos, como considera melhor. Existe o exercício da soberania sobre esses recursos. Por outro lado, não necessitando de qualquer ajuda, garante a sua autonomia. São dois lados da mesma moeda.

Confesso que muitas vezes me pergunto se a autossuficiência não é uma palavra que se tenta deixar fechada, porque pode emancipar, dar ideias sobre liberdade que podem ser perigosas no nosso sistema. Talvez a ideia mais perigosa seja mostrar como somos e vivemos num mundo de carne e osso, quotidiano, sobre o qual podemos agir e procurar satisfazermo-nos.