Banalidade do bem

Uma pergunta fundamental da Filosofia: o que estamos aqui a fazer? Alguns dos maiores nomes da Filosofia do século XX construíram as suas ideias na assunção de que não existe um significado prévio, que estamos condenados a fazer o melhor que conseguimos. Muita da autoajuda do nosso século baseia-se na ataraxia, no apaziguamento da alma, proveniente de escolas helenísticas que pulsaram há mais de dois mil anos. Quando o desespero se instala para responder a essa pergunta, acabamos num cenário niilista e cínico.

O mundo é um espaço onde nos movemos apaticamente, com indiferença, num sentimento de impotência e desprezo. Hoje, parece fazer parte desse movimento que haja um carácter militante: podemos considerar que está tudo perdido, que nada faz diferença, mas damo-nos ao trabalho de ir para o espaço público, seja o café ou a rede social digital, e expressar essa visão.

Esta apatia militante pode ser uma perversão niilista, ou pode indiciar, talvez, que mesmo quando abraçados pela derrota, sentimos sempre uma necessidade de nos expressarmos, de reivindicarmos a nossa existência, a nossa presença, nem que seja pela negativa, pelo simples gesto, contraditório ao seu conteúdo. Pensar neste gesto relembra-me um excelente livro de RutgerBregman, "Humankind", no qual argumenta que a esmagadora maioria dos seres humanos tem uma predisposição para praticar o bem.

Nesse cenário, a visão de uma natureza humana maligna funciona como um nocebo (um placebo invertido), uma profecia autorrealizada, uma mentira tantas vezes repetida que se tornou justificação para normalizar comportamentos. Julgo que nesse livro não explora uma possível noção de "banalidade do bem", bem que podia. Hannah Arendt cunhou a expressão "banalidade do mal" para se referir à capacidade que temos para sermos monstros, sem parecermos monstros. Eichmann era um "contabilista" responsável pela morte de milhões de pessoas, sob a fundamentação de que apenas seguia as ordens que lhe eram endereçadas.

Se o mal pode ser evocado para se abordar estes episódios horrendos da nossa História, então temos de ter em mente a banalidade do bem que permeia o nosso quotidiano: ajudarmos um colega, segurar uma porta, um encorajamento, um socorro,...

O mesmo gesto niilista de nos expressarmos cinicamente é uma prova dessa predisposição à ação que temos e que é comum a estes exemplos. Se este bem não é tido em grande escala é porque existe algo que o condiciona. Vivemos numa cultura que evidencia todos os males. E não os evidencia para se atuar sobre eles, ou conseguir melhorar a nossa sociedade. Não, evidencia para construir o tal efeito nocebo, para nos tornar cínicos, desconfiados.

O nosso sentimento de impotência é a nossa maior causa de inércia. É também um terreno fértil para cultivar o medo e essa é uma emoção fácil de manipular. Percebemos que este movimento é premeditado, que esta cultura não aparece do nada, mas de um sistema, quando nos apercebemos que uma das suas consequências é colocar pessoas umas contra as outras.

Com divisões assim, não é possível enfrentar esse sistema. Enquanto estivermos quase a esmurrarmo-nos sobre quem recebe 180€ não estamos a discutir sobre como é possível que 12 pessoas tenham mais de metade da riqueza do mundo. Como é possível que haja fome num mundo com tanta riqueza. Como estamos à beira de uma catástrofe climática e a preocupação é não reduzir esta riqueza. Redistribuir é uma palavra maldita, até para aqueles que estão numa situação frágil! Haja consciência.