O cenário mais absurdo possível aconteceu na passada semana: o orçamento da região para 2024 foi rejeitado no parlamento e, logo de seguida, o governo que rejeitou negociar anunciou que irá apresentar um segundo orçamento e dois partidos que se abstiveram, contribuindo para a rejeição do orçamento - CH e PAN - declaram-se disponíveis para negociar, apesar de terem sempre argumentado que o orçamento não era o problema, mas sim o governo.
Perante este cenário, qualquer pessoa pergunta: se afinal havia vontade e possibilidade de se entenderem então porque não o fizeram antes? Por que motivo arrastaram os Açores para uma situação de enorme instabilidade e incerteza quanto ao futuro, levando até à intervenção do Presidente da República que, hoje mesmo, ouvirá os partidos com o intuito de decidir se dissolve ou não a Assembleia Legislativa e convoca eleições antecipadas?
Mais uma vez, o taticismo e as fracas convicções traduzem-se em tibiezas e ziguezagues políticos. Ziguezagues do governo e de quem se absteve no orçamento.
Se o célebre próximo orçamento for afinal aprovado, não será, uma vez mais, devido ao que lá está escrito, mas sim devido às manobras e aos jogos palacianos. Os Açores e os problemas das pessoas são, afinal, a menor das preocupações de quem embarca nestas jogadas políticas sem substância.
A propósito da intervenção do Presidente da República (PR) neste momento político singular da história da Autonomia, devo dizer que esta é uma exigência constitucional, uma vez que cabe ao PR e só a este dissolver a Assembleia Legislativa e convocar eleições antecipadas. Lá por ser uma situação inédita, não significa que não esteja prevista. E muito menos significa que a possível dissolução devido à falta de credibilidade da palavra de vários intervenientes seja ilegítima.
Da parte do Bloco de Esquerda mantivemos e mantemos a coerência sobre a avaliação que fazemos do governo, do seu programa e deste orçamento: são o caminho errado para os Açores que nos empurram para um poço sem fundo. Que nos retiram o futuro.
No meio do nevoeiro da propaganda do governo regional, feita com recurso ao poder do governo regional, a consequência da política deste governo vem ao de cima. A pobreza voltou a subir nos Açores em 2022, 1 ponto percentual, voltando os Açores ao topo deste triste indicador. Tal como aumentou a desigualdade entre mais ricos e mais pobres. Pelo segundo ano consecutivo.
Não há volta a dar, este é o resultado da política de um governo regional de direita que tem como consequência que a maioria das pessoas fique mais pobre, para que alguns enriqueçam. É a consequência da política económica e fiscal do governo. A região empobrece ao mesmo tempo que a direita celebra quando há menos pessoas a receber RSI. Que haja cada vez mais açorianos a viver pior, pouco interessa ao governo e à direita. Importa apenas que os mais pobres dos pobres vivam cada vez pior, desde que isso signifique ter algum número para apresentar.
Foi em coerência com a rejeição desta política que assumimos o nosso voto. É em coerência que apresentamos um rumo alternativo a este governo esgotado.