Cadáver esquisito

A. É impressionante como ninguém quer trabalhar hoje em dia. Até vêm de fora. Ainda outro dia vieram cá parar mais de 30 por barco. Estes imigrantes ilegais vêm para aqui sugar dinheiro ao Estado!

B. Se são ilegais, o Estado não então por ele identificados, como é possível receberem apoio?! Mas não vamos por aí, pensemos antes: mais de uma dezena dessas pessoas foi hospitalizada. Estas pessoas passaram dias num pequeno barco sujeitas a condições adversas, tendo como esperança chegarem vivas a terra. Será que essa escolha foi feita levianamente? Não será a evidência do desespero? Somos tão ingénuos ao ponto de nos esquecermos que há mais de 50 anos também pessoas fugiam do nosso país, entrando ilegalmente noutros para conseguirem ter uma vida? Em 2015 a fotografia de uma criança síria morta numa praia turca correu o mundo causando horror, mas agora, passada uma década, parece que foi só mais um momento que nos fez normalizar as tragédias humanitárias, as violações à dignidade humana, tornando-nos cada vez mais indiferentes ao sofrimento do outro.

A. Mas há muitos que vêm para aqui, mesmo legais, e não fazem nada. Ou melhor fazem: ser violentos e roubar. Ah, e ainda se metem às dezenas num apartamento fazendo o preço das rendas subir!

B. Eu ter de dividir casa com mais pessoas para pagar a renda faz aumentar a crise na habitação ou é mais uma evidência dessa crise? Muitos dos imigrantes que são alvos destes ataques estão entre os trabalhadores mais pobres do país, é óbvio que não conseguem fazer face sozinhos ao balúrdio que as rendas se estão a tornar. Apesar disso, contribuem anualmente com quase 3 000 000 000€ para a segurança social – já se deduzindo ajudas que podem receber de desemprego ou parentalidade, como qualquer português. A polícia já negou várias vezes a relação entre imigração e criminalidade. Só 12% dos presos são imigrantes. Porque é que nos é tão difícil aceitar que estas pessoas vêm para cá construir honestamente uma vida melhor? O problema não parece ser o facto de serem imigrantes. Reino Unido, Itália, França contam-se entre os países com mais imigrantes depois do Brasil que ocupa de longe o primeiro lugar e, no entanto, não é sobre eles que ouvimos falar, nem são deles os rostos que acompanham as notícias sobre imigração. A maior parte dos imigrantes em Faro são britânicos, mas se pesquisarmos sobre imigração no Algarve não são as suas caras a aparecer. Também não aparecem as caras de nómadas digitais que em Portugal podem imigrar ao abrigo do estatuto de residente não habitual, pagando menos taxas, o que faz com que se percam 1 500 000 000€ em impostos. O problema parece ser, então, com os imigrantes pobres e racializados.

A. Lá estão vocês a inventar minorias. Só querem é falar de sexo às crianças e chamar ao vandalismo ativismo.

B. Cada ser humano deve ter a sua dignidade independentemente de qualquer caraterística. Isso leva-nos a defender também quem está em minoria e a dar conhecimento sobre a sua dignidade. A educação sexual, por exemplo, dá ferramentas às crianças para identificarem situações de abusos e prevenir experiências precoces desinformadas, que podem resultar em gravidezes indesejadas. Tudo isto tem de ser defendido. Tal é a gravidade dos problemas que nos rodeiam, desde o clima a Gaza, que toda a visibilidade é pouca.

:Dividir, circunscrever, marginalizar, «dividir para reinar». Somos assim tão parvos? Enquanto andamos a discutir temas sem senso, está um governo a facilitar despedimentos, a por um preço em dias de férias, a fazer reformas surpresa no financiamento à investigação e a piorar as várias crises pelas quais estamos a passar: