A cenoura que cega

Um relógio que se orienta pelo fuso da Europa Central deveria ter marcado algo em torno das 20:45. Estava sentado no chão, com as minhas costas a encontrarem uma coluna que se destacava da parede e a tentar combater a dormência que se apoderava das minhas pernas. Fechei os olhos para me abstrair de qualquer ruído visual e poder apreciar a música que «Mahler Chamber Orchestra» proporcionava. Afinal, não é todos os dias que podemos estar na famosa sala vienense, onde acontece o concerto de ano novo que a RTP1 televisiona, a ouvir composições tão belas que o nosso quotidiano raramente nos propicia.

Estava, portanto, na famosa Großer Musikvereinssaal da Musikverein. Um local extraordinário que nos transporta para o século XIX. É a fachada neoclássica estrategicamente iluminada, é o átrio sofisticado, é a escada, cada degrau, uma expectativa, é o espaço de intervalo corrido a mesas altas e brancas com bebidas brancas, é a grande sala banhada a ouro, suportada por 32 estátuas no meio de muitos outros ornamentos que negam uma superfície lisa. É a Viena imperial. É um outro mundo.

Mas no século XXI que mundo é esse? Que rutura é esta? Parece-me haver aqui várias respostas. Por um lado, é a quebra do quotidiano: um espaço radicalmente diferente para uma atividade atípica, do ponto de vista da esmagadora maioria das pessoas. A música clássica é perspetivada de um outro modo daquela da pop, por exemplo. Ouvi-la ao vivo é ainda menos habitual. Por outro lado, temos uma dimensão social muito evidente: várias das outras pessoas ali presentes pagaram mais de 200€. Não será difícil de imaginar o desconforto deste choque, o abalo da questão da nossa pertinência naquele lugar – qual a relação entre poder económico e música? Mas há um outro lado, na verdade uma hipotenusa.

Os nossos bilhetes eram os mais baratos, 12€, numa secção em que se assiste em pé. Assim o fizemos durante a primeira parte do concerto, contudo, na segunda já não aguentava e, encontrando-se metade daquele espaço vazio, resolvi, como várias outras pessoas, desfrutar sentado daquele espetáculo. Foi em algum momento depois dessa decisão que tive uma imagem extraordinária: por entre a floresta de pernas que florescia a 1.5m de mim conseguida, por entre os bancos que se lhe seguiam, ver no palco o violoncelista. O mais evidente nesta abertura eram umas barras de metal que separam o espaço daqueles em pé, da zona em que começam as cadeiras. Uma barra que de altura não terá mais de 1m, ainda assim, para quem estava na minha visão, era uma grade.

Estava eu então atrás das grades a ouvir a música, ao lado de outros turistas curiosos e vienenses musicofílicos com a preferência de poupar algum dinheiro. Vem-me à memória outra cena desta afortunada viagem: quando estávamos sentados no Café Central a comer um Sachertorte e um Apfelstrudel. Outra joia do final do século XIX, onde foram clientes habituais pessoas como Zweig, Freud e Trotsky, e mesmo Hitler e Stalin. Entre o rebuliço das vozes que se combinam e as fífias das fotografias que se multiplicam numa porta sem descanso, perguntava-me se naquele café alguém pedia «o habitual». Os trabalhadores ofegantes na minha cabeça eram lidos como as pessoas que Anna Pacheco tão vivamente aborda em «Estive aqui e lembrei-me de nós».

Um café que deixou de ser café para ser uma atração. Uma sala de concertos que tolera a plebe. Vivemos num mundo que normaliza nos satisfazermos com umas férias a correr, cujas memórias são fotografias que empenhamos com orgulho numa vida virtual, mesmo que isso esvazie o sentido dos espaços que para outros são os do seu quotidiano. Soa familiar?

No final do dia, o mais bonito de tudo é mesmo o pôr-do-sol.