A ciência morreu

Ainda outro dia ouvi uma frase que me ficou a marinar no cérebro: a ciência morreu. A ciência morreu? Como? Não está em cada criança o sonho de ser cientista? Não estamos nós rodeados de tecnologia e cada vez a superar-nos sobre aquilo que é feito a uma velocidade vertiginosa? Bem, a verdade é que se a ciência não morreu, para lá caminha. Ainda nesta semana, no Público, revisitei esta discussão ao ler um trabalho de auscultação [https://www.publico.pt/2023167].

Quando pensamos na ciência, vem-nos à mente questões que tentam inferir o funcionamento do mundo que nos rodeia e até de nós mesmos. Pensamos em áreas do saber como matemática, biologia, física, história, sociologia, psicologia,… O Universo é dividido em especializações que comunicam entre si. A ciência é a aplicação de um método sobre aquilo que queremos investigar. No fim do dia, concluímos algo (nem que seja que a nossa hipótese está errada). Isto tudo parece tão linear, como é possível estar a morrer?

Bem, a ciência é motivada pelo amor ao conhecimento, à vontade constante de aprender e, com base nisso, poder melhorar a nossa qualidade de vida muitas vezes. É inegável o impacto que a tecnologia, herdeira da ciência, tem no nosso bem-estar. O ponto é que isto sai caro. Precisamos de pessoas, precisamos de equipamentos,… Uma parte considerável da investigação em Portugal é feita por docentes universitários, ou seja, através de uma sobrecarga de quem ensina. É praticamente impossível ser simplesmente investigador no nosso país, porque não existe um financiamento sério e consistente para a ciência. Só cerca de 8% das candidaturas apresentadas à Fundação da Ciência e Tecnologia foram aceites.

Nos nossos dias, quem pretende investigar quase que é obrigado a ir para uma empresa, onde fica refém de interesses económicos. Foram incontáveis as vezes na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto que eu ouvi as mais variadas pessoas a engendrarem o mesmo plano de ação. Os professores apoiam, porque sabem que o mundo académico é muito limitado e o financiamento público à investigação é uma lotaria.

É por isto mesmo que a ciência morreu: o dinheiro público e privado não são a mesma coisa. Um rege-se por aquilo que é mais útil para as pessoas, o outro é a aposta de uma elite no seu enriquecimento. O domínio do capital privado na ciência destrói as pontes de cooperação tradicionais no meio académico, trazendo a urgência de ser o primeiro a atingir as metas, para se atingir o lucro. A investigação norteia-se por ele e não pelo acumular coerente de conhecimento. Estamos a desperdiçar mentes brilhantes a resolver questões que nos parecem úteis agora, como melhorar os nossos equipamentos digitais, mas ignoramos que elas podiam ser um investimento a longo prazo, que nos desse a chave para revoluções tecnológicas. Falo em tecnologia por ser, provavelmente, a forma mais intuitiva de ver esta situação para quem não se encontra no meio científico.

É desolador ver que a ciência, o modelo da utopia, onde a cooperação e fraternidade imperam pelo bem comum, se transformar cada vez mais num simples meio utilizado como convém, quando convém, onde convém, durante convém para alguns obterem lucro.

No entanto, tem de haver sempre esperança. A pandemia demonstrou o domínio que operadores privados têm sobre a nossa saúde, demonstrou a importância da cooperação. Num período ainda maior, as alterações climáticas têm demonstrado o mesmo. Que haja bom senso na cabeça de quem nos comanda e se valoriza quem de direito.