Colete-de-forças

Não faltam assuntos para comentar, mas, infelizmente, eles não perderam atualidade se esperarem um pouco mais. Hoje utilizo esta página como terapia, a exteriorização de o desabafo de um mariense de 22 anos. Este é um exercício de honestidade e franqueza.

Neste momento, escrevo de Santa Maria, encontrando-me de férias – apesar de ter um trabalho de investigação extracurricular ainda a decorrer. Tenho tempo livre. Tenho ideias. Contudo, quase nada é feito, e o que se consegue é a ferros. Cansaço? Talvez. Preguiça? Talvez. Desmotivação? Talvez. Mas nenhuma destas caraterizações promete esgotar esta inércia, esta resistência ao movimento. Já algumas vezes ao longo destes anos escrevi sobre este assunto. Pois bem, também é daqui que parto hoje. Julgo ser pertinente, porque esta questão me parece presente em muitas mais pessoas e é sintoma de algo que nos liga.

Permitam-me que comece por elencar alguns projetos que gostava de levar por diante, de forma a enquadrar o contexto social em que isto se me aparece (talvez escrevê-los aqui também funcione como catalisador).

Até hoje nunca me faltou nada, nunca passei necessidades. Isso faz de mim alguém privilegiado, face à realidade portuguesa e, mais ainda, açoriana. Esse bem-estar associado a um gosto pela ilha (pelo seu património natural e histórico), leva-me a sentir um dever de retribuição. Pelo menos desde 2017 tenho tentado contribuir ativamente para a nossa comunidade. Muitas ideias me cruzam a cabeça, muitas foram escritas e apresentadas, muitas ficaram esquecidas (várias fracassaram, outras ficaram órfãs), neste momento tenho quatro: Pensar Santa Maria, um think tank que pretende gerar informação e reflexão universalmente acessível sobre a ilha, já em funcionamento, mas com muito pouca adesão; a organização de um compêndio sobre a ilha; a elaboração de um percurso valorativo e sistémico que sirva de contribuição para o seu futuro; e a sistematização do pensamento filosófico mariense através da análise dos seus autores e da cultura popular. A estes projetos somam-se outros sem relação com a ilha, germinando todos eles daquilo que estudo e da atividade política.

Para estes projetos (como para tudo) precisa-se abundantemente de tempo, em alguns de mais pessoas.

Por norma, o décimo segundo ano é aquele com mais tempo livre, não obstante, foi aquele que menos ideias executei. Essa experiência levou-me a considerar verdadeiro a sabedoria popular: quanto mais tempo se tem, menos se faz. O atrito cinético é menor ao estático. Parece que precisamos de ser forçados a organizar o tempo para agir. Temos de entrar num registo de tensão para não parar. Não deixa de ser curioso que qualquer pessoa diga que não tem tempo. Ao mesmo tempo que a tensão gera a atividade, também a inibe. O trabalho, a família, levam a que muita gente se afaste, por exemplo, do associativismo. Há uma enorme dificuldade em encontrar grupos de pessoas dispostas a dar do seu tempo à comunidade.

E sinto-me culpado por acabar por não fazer. Por não ser produtivo. E é nesta consequência que se torna evidente que o sistema em que estamos tem um grande papel. As ideias tornam-se em obsessões que não arrancam por termos sempre metas distantes, além de nos esgotamos no ritmo frenético da vida, também o fazemos nas nossas expectativas, uma competição connosco próprios. Além do cansaço, imobilizamo-nos um pessimismo – mais vale estar quieto do que mais um fracasso. Falta empreendedorismo, dirão alguns. Pois bem, ele só acentua essa competição.

Este pessimismo que pesa radica de um sistema (construído por nós) que nos falha, não da nossa condição humana. Resta, portanto, a esperança.