Este sábado decorreu o primeiro dia das terceiras Conferências Zuraida Soares em Santa Maria. Tive o prazer de moderar uma tarde em que intervieram José Soeiro e Pedro Filipe Soares, sobre a semana de quatro dias e a relação da inteligência artificial com o trabalho, respetivamente. Além das exposições terem sido bastante elucidativas, sucedeu-se um participado debate sobre esses temas. Julgo que, assim, se fez uma bonita homenagem a Zuraida Soares e ao seu espírito democrático. Hoje aquilo que aqui trago é uma melhor sistematização daquela que foi a intervenção de abertura que fiz. Estes temas já neste espaço foram sendo publicados, sendo a minha esperança que o leitor atue como juiz do sucesso na melhoria da sua concretização.
Desde logo, há um aspeto crucial que me parece necessitar de ser alterado: a forma como construímos os programas eleitorais. Eles são organizados em função de temáticas colocando algumas propostas concretas sob a alçada ora das acessibilidades, ora da saúde, ora da economia,… e isto quando não se usa um critério geográfico e se somam propostas debaixo de um teto como uma ilha ou um município – por vezes meramente meia dúzia de propostas. Esperam-se, então, duas coisas: que o eleitor seja capaz de perceber qual o projeto político de um partido com base nessa leitura e que consiga distinguir os projetos de cada partido. Parece-me que estas duas tarefas se tornam bastante complicas, por um lado, pode haver um reduzido número de propostas, por outro, é preciso tempo, algo que é cada vez mais raro – e não propriamente por opção nossa.
Qual a alternativa? O que me faz mais sentido e se me afigura como intuitivo é ter uma abordagem sistémica da realidade. Ou seja, como os mais diversos aspetos se conjugam numa só vivência – afinal, não vivemos na economia, ou no trabalho, ou na cultura, ou na educação,… vivemos onde tudo isso coexiste -, devemos ser capazes de entender que uma proposta tem um impacto em mais de uma área temática – e tomar partido disso mesmo. Basta pensar como, por exemplo, o estímulo do ecossistema espacial em Santa Maria vem atrelado a questões de acessibilidade, saúde, habitação, saúde, economia, emprego,…, em diferentes medidas conforme a sua dimensão. Da mesma forma como quando afirmamos que é necessário construir habitação se está a trabalhar sobre a economia, os assuntos sociais, o urbanismo, os transportes públicos,… Até aqui aquilo que parece é que, então, a uma proposta temos de associar várias áreas – o que, convenhamos, só nos está a dificultar as coisas. A alternativa é abandonar as questões temáticas como organização da visão. São importantes como é importante estudar as disciplinas, mas uma visão de conjunto é o que precisamos quando falamos de como poderá ser uma comunidade futura. Isto é bonito de se dizer, mas como concretizar?
Uma possibilidade é através de uma perspetiva de valores. Afinal, vivemos numa democracia representativa à base de partidos e, supostamente, aquilo que os distingue é a sua ideologia. São os seus valores que apontam a sociedades distintas possíveis. Então porquê relegar a isso? Ao se escolher falar de desenvolvimento, justiça, igualdade, liberdade, dinamização, sustentabilidade,…, faz-se uma direta distinção das prioridades. Tal como nas temáticas, cada projeto deve abordar os vários valores, mas há uma disposição hierárquica que garante que cada projeto será naturalmente distinto e facilmente distinguível.
A pergunta que qualquer projeto deve responder é «o que é uma vida boa?», é aqui que temos uma visão sobre a totalidade, chegando a conclusões que nos são impossíveis pelos óculos seletivos de segmentações temáticas, que mais não fazem do que tornar a política um potencial exercício de tecnocracia