Anteriormente, nos artigos de 10 e 17 de janeiro, debrucei-me sobre a questão – em duas perspetivas distintas -, no entanto, parece-me que ainda existem mais pontos a discutir, mesmo sendo eles, à primeira vista, gerais e não uma temática exclusivamente açoriana. Digo à primeira vista, porque facilmente podia andar a fazer associações, mas não é esse o meu ponto.
O que ficou por abordar? A questão central: o método utilizado para o acesso ao ensino superior. Como poderá saber o leitor, a candidatura gira em torno de notas: a média do secundário e as classificações dos exames nacionais. Cada curso estabelece a relação e os exames que são necessários: os exames podem valer 60%, 50%, 40%,… e podemos precisar de só Física e Química ou só Matemática, ou os dois juntos, ou três até! Quando os estudantes ordenam as suas opções vão aparecendo as notas de candidatura a cada curso, segundo essas condições (a plataforma escolhe os exames candidatos conforme a combinação que confere a melhor nota).
Desde logo, podemos perguntarmo-nos se basear a entrada no simples cálculo matemático é justo. Podemos olhar para outros países, como os Estados Unidos são famosos por, e observar um método de seleção mais personalizado com cartas de motivação e recomendação, juntamente com um currículo. Podemos perguntarmo-nos se esse método não leva a que os jovens se desdobrem em atividades extracurriculares que não querem verdadeiramente fazer, para tentar entrar na faculdade, ou seja, perceber até que ponto querermos uma aproximação mais genuína de cada jovem, pode levar a uma perversidade na sua identidade e obstaculizar a sua individualidade. Claramente percebemos que é uma questão muito complexa. Aquilo que deve ser evidente é que a educação é crucial para qualquer sociedade, devendo ser um direito: quem quer estudar, deve conseguir fazer independentemente de qualquer condição pessoal – sim, eliminação das propinas, alojamento acessível e numeroso, anulação de emolumentos básicos,… entram aqui.
Resta-nos o sistema que temos. Aquilo que o Ministério da Ciência e Ensino Superior pretende é que os exames tenham um peso mínimo mais elevado, 50% salvo erro. Esta lógica faz sentido? Sempre vi os exames nacionais como uma responsabilidade das universidades atirada para o ensino público obrigatório: é óbvio que as instituições de ensino têm de ter critérios para definir quem fica com as vagas, pelo que cada uma podia fazer, por exemplo, uma prova para ordenar os estudantes. Não é uma realidade alheia à realidade. Não obstante, esta realidade que temos, de acordo com o sistema que temos, não me parece desadequada.
É claro que tem de ser possível averiguar as capacidades de uma pessoa para a área a que se candidata. Como o critério deve ser universal, é preciso partir de um ponto comum dos estudantes: aquilo que foi abordado no ensino obrigatório. Os exames nacionais serem feitos nas escolas é uma boa simbiose por serem garante que as provas se adequam às metas nacionais das disciplinas, igualdade de oportunidades para o acesso, e a escola pública fica com um instrumento de reflexão sobre o sucesso dos alunos nas áreas. Claro que a igualdade de oportunidades nunca é perfeita, por serem professores diferentes, não haver as mesmas condições em todas as escolas, além dos fatores pessoais. Também se acresce ao facto dos exames serem momentos isolados e de grande tensão, pelo que não revelam as reais capacidades.
Se a questão específica é importante, a geral também: convém que todo o desempenho seja valorizado, apesar de ser justificado o papel crucial dos exames em relação às especialidades.