Este sábado fui assistir ao filme do momento: Ainda Estou Aqui. Depois de dezenas de indicações, de várias vitórias e do estrelato da nomeação ao Oscar, muito já foi dito sobre essa obra, sendo que qualquer crítica que posso fazer pecará. Compele-me a consciência, não obstante, que aqui escreva sobre aquela que é a mensagem coletiva mais poderosa do filme – que, tenha-se em mente, reconstitui uma história verídica.
Acompanhamos os passos de uma família que vive feliz. Está-se em plena ditadura militar no Brasil, mas o ambiente soa a alguma liberdade. Trata-se de uma família com um estatuto económico bastante confortável, uma casa que podia ser entendida como «progressista» pelos nossos padrões, com elementos de contracultura, principalmente através do acesso aos discos mais recentes de artistas nacionais e internacionais. Ora, esta imagem é um desafio para nós: como pode uma ditadura, que é em tons de cinzento, ser retratada nestas cores vivas? Pode porque falamos de pessoas. Pode tal como as pessoas viam a cores, mesmo quando a televisão só mostrava imagens a preto e branco, ou como as estátuas gregas eram coloridas, apesar de hoje as vermos monocromáticas. Somos seres humanos independentemente do contexto em que estamos, somos sempre mais parecidos do que julgamos, há sempre uma fútil sensação de familiaridade. A mística parece desaparecer com o fim da ignorância. Todo o resto do filme é a desconstrução destas cores: mostrar a tragédia de uma família que se confunde com os tons de cinza – e o combate, portanto, pela sua emancipação destes.
Isto faz-se lembrar o que Sérgio Godinho canta: «O fascismo é uma minhoca / que se infiltra na maçã / ou vem com botas cardadas / ou com pezinhos de lã». Privar de liberdade não é necessariamente ser preso ou ficar agrilhoado, é negar a autonomia, a autodeterminação. É possível haver alegria num ambiente de censura: não nos enganemos, essa não passará de uma aparência, um sentimento que buscará na simplicidade, uma vez que os nossos caminhos fogem à nossa vontade. A minha avó ao pensar no passado recordava os momentos de felicidade como algo genuíno e ingénuo.
Este tema da felicidade teria pano para mangas, mas permitam-me parar a divagação por aqui com estes exemplos de alerta para que as aparências iludem, que as imagens que construímos podem ser perigosas. Hitler foi eleito. Não foi de um dia para o outro que a liberdade se foi, foi-se perdendo. Neste processo temos de estar atentos ao outro: o poder quer o povo dividido, então vai criando inimigos que se confundem com grupos sociais e são esses os primeiros a perder a liberdade. Quando dermos conta, também a perdemos.
Esta semana não trouxe melhores notícias que as anteriores. Trump publicou a famosa citação «Aquele que salva o seu País não viola nenhuma Lei», que simboliza a possibilidade de ser julgado de forma diferente perante uma mesma lei - quem tem o poder, tudo pode. E nos EUA o poder está com um rosto mais visível do que nunca: uma oligarquia que consiste na esmagadora influência política que uma elite económica detém. Musk levou o filho para a Sala Oval e mostrou ao mundo um triste espetáculo de luta de egos, mas, mais do que isso, do assalto à democracia. Desde o conflito de interesses até ao interromper o presidente, tudo.
Por cá parece que a Assembleia da República virou tasca à conta de 50 deputados cujo único plano é a satisfação do interesse pessoal. Como se estes momentos que erodem a confiança nas instituições não fossem maus o suficiente, Montenegro esforçou-se para ser incompetente na garantia de transparência. Pezinhos de lã.
Combater os ventos fascizantes é um dever que não pode ser ignorado. Sejamos capazes de estar atentos, questionar, perceber quem sai beneficiado é um bom indicador, e refletir com honestidade intelectual.