Dou por mim a ver notícias para perceber se o mundo acabou. Parece-me evidente que este é um sintoma de algo que não está bem. Julgo que o mais importante, e o que torna esta vivência mais frustrante, é afirmar que este não é o único mundo possível. Nós vivemos no meio de convenções que são definidas por humanos. Muitas vezes querem-nos fazer crer que há um só modo de fazer as coisas, e, nessa senda, concluem que se deve afastar a ideologia da política, ser «pragmático», o que, na prática, é despolitizar a política.
Permitam-me um exemplo pessoal que me marcou por ser tão óbvio: nas regionais de 2024, na rádio, tive uma pequena discussão com o candidato da IL sobre se o transporte marítimo devia ser público ou privado; um comentador dessa estação, posteriormente no seu espaço, fez notar que essa reflexão não tem utilidade: toda a gente sabe que a resposta é «mista», onde o público apoia o privado. Esta objeção evidencia os dois pecados desta narrativa: ela quer afastar a ideologia, mas a resposta que dá é ela própria ideológica e, mais ainda, tenta camuflar essa flagrante contradição com a aparência de «moderação», de «centrismo», um bom-senso construído retoricamente – pensemos: numa parceria público-privada o Estado continua a ter despesa, só que abdica de controlar esse serviço, pelo que esta não é uma posição intermédia. Nós temos imensas armadilhas destas.
No espaço público damos conta dos maiores absurdos que se fazem passar por bom-senso: sempre que há uma manifestação e a ela se associa uma contramanifestação de neonazis, independentemente do tema, existe gente iluminada que afirma que é preciso chegar a um compromisso. Muitas vezes aquilo que está em oposição é um direito humano e a sua própria violação. Como é possível falar-se em compromisso quando o outro interlocutor tem como único programa a legitimação da sua violência, do seu ódio? O discurso sobre o genocídio em Gaza também aqui é representativo: há muita gente que sobre a fome que o governo israelita está a infligir na população de Gaza, defende que Israel deve ser compensado se levantar o cerco. De forma a tentar tornar mais óbvia esta posição «centrista», é comum falar-se em antissemitismo e no ato terrorista do Hamas a 7 de outubro de 2023, ignorando toda a História precedente. Nem é preciso inventar, basta descontextualizar, basta jogar com a ignorância. Confundir antissemitismo com antisionismo é o pão nosso de cada dia neste âmbito, mudando o foco das mortes de inocentes.
Estamos na altura em que as candidaturas às autárquicas já estão definidas e tentarão começar a ganhar espaço. Estas eleições são, por excelência, o campo da despolitização: diz-se que as pessoas contam mais do que partidos, que as propostas são concretas. Não há ideologias quando se fala de poder local. Quero ver quem diz isso depois de se privatizar a água; das estradas não serem arranjadas, porque se baixaram impostos aos lucros das empresas; de se deixar cair património histórico, porque não rende; de não se fazer manutenção às escolas para melhorar o marketing turístico;… Se há um plano, há prioridades, escolhas coerentes e, quer queiramos quer não, isso é ideologia. Talvez na maior parte das vezes não haja planos e seja isso que oculta a ideologia.
Da nossa parte é preciso espírito crítico. «Isto tem de ser assim, porque é assim»; nenhuma criança fica satisfeita com uma resposta destas, porque é que nós ficamos? É claro que implica esforço, mas enquanto andarmos como autômatos a encontrar sucessivamente o elo mais fraco da sociedade para responsabilizar por todos os males e marginalizar, os problemas continuarão os mesmo.