A cultura sofreu mais um choque. A cada ano, o setor cultural dos Açores demonstra dinâmica, competência e, acima de tudo, vontade de criar. Encontra, no entanto, a cada ano, uma barreira no governo regional que insiste em não ter uma política cultural digna desse nome.
Um dos sintomas desta falta de política cultural é a precariedade no cargo de diretor regional da cultura. Um cargo com uma rotatividade que faz uma empresa de trabalho temporário parecer um verdadeiro oásis de estabilidade. Não é um diretor ou diretora regional quem governa, mas a administração pública não funciona sem dirigentes que possam estabilizar processos e aplicar devidamente políticas de forma consistente.
A cada ano, o financiamento público à cultura tem sido pequeno, chega tarde, foi rateado e este ano foi mesmo cortado a 40% dos agentes culturais com projetos avaliados positivamente. O mesmo governo regional que se orgulha de ter acabado com os rateios nos apoios aos agricultores impõe cortes draconianos à cultura.
A incapacidade de concretizar nos Açores um desenvolvimento que nos aproxime dos indicadores nacionais e europeus tem várias causas. Uma delas é a falta de investimento dos governos na cultura, principalmente na cultura que é disruptiva, que abre mentalidades e ajuda a ler o mundo de outra forma.
Esta falta de investimento na cultura, disfarçada de opção orçamental e envolta num manto de tecnocracia, é uma opção política de fundo.
A triste ironia deste descalabro é que o mesmo se concentrou no ano em que os Açores têm a responsabilidade de levar a cabo o projeto da capital portuguesa da cultura, Ponta Delgada. O ano da capital portuguesa da cultura ficará marcado, não como o ano de celebração da cultura açoriana e da sua abertura ao mundo, mas como um ano negro para o setor, em que projetos de enorme impacto cultural e até social ficaram sem financiamento. Em vez de desenvolvimento e abertura, temos abandono.
Como se isso não bastasse, também o taticismo está a colocar em causa a própria execução da programação do projeto da capital portuguesa da cultura. Por responsabilidade de quem gere, o projeto está muito aquém das expectativas geradas e do que era exigido. Mas a exigência de transparência não pode obliterar a concretização, sob pena de não haver nada para ver, muito menos fiscalizar.